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ARTIGO

O Transplante no Brasil está de luto

Existe uma íntima conexão entre os dois nomes que nos abandonam

por Milton Artur Ruiz
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
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Em menos de 20 dias, o país perdeu dois de seus grandes pioneiros. Em 27 de abril, faleceu Silvano Raia, aos 96 anos, responsável pelo primeiro transplante de fígado no Brasil, em 1985. Foi inovador no uso de segmentos hepáticos de doador vivo para o transplante em crianças.

Entusiasta do xenotransplante, contribuiu para a preparação de órgãos de animais para o transplante. Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, estimulou gerações de cirurgiões e orientou a formação de pesquisadores que influenciaram todas as áreas do transplante. Contribuiu com a criação de uma política nacional de transplante de órgãos e tecidos e foi um apologista da atividade multidisciplinar dos procedimentos.

Dias antes, faleceu José Eurípides Ferreira, aos 86 anos, pioneiro do transplante de medula óssea ao lado de Ricardo Pasquini na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná em Curitiba. Participou do primeiro TMO em 1979 e contribuiu decisivamente para a expansão da área no Brasil, formando profissionais e estruturando serviços de referência.

Em 1985, publicou na Human Immunology os primeiros resultados dos 62 transplantes de medula óssea no Brasil e na América Latina Em 1996, fez parte da equipe que realizou, o primeiro transplante de medula óssea entre não parentes, que contou com o auxílio do banco de medula do “Redome” do Instituto Nacional do Câncer.

Foi responsável pela implantação dos serviços de Oncologia, Hematologia e Transplante de Medula Óssea no maior hospital pediátrico do país, o Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, Paraná. Contribuiu com a implantação do transplante de Medula Óssea do Hospital Albert Einstein de São Paulo, tendo sido presidente da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia e fundador da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea.

Existe uma íntima conexão entre os dois nomes que nos abandonam, e o exemplo disto é a outorga do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1990 para E. Donnal Thomas pelos trabalhos com o transplante de medula óssea e Joseph E. Murray pelo transplante de órgãos sólidos, rejeição e xenotransplante.

A medicina brasileira perde dois nomes icônicos, cujo legado permanecerá vivo na prática médica, na ciência e na esperança de milhares de pacientes.

Milton Artur Ruiz

Médico, Graduado na Universidade Federal do Paraná, Ex-Professor da Faculdade de Medicina USP, São Paulo, e Responsável Técnico pela Unidade de TMO e Terapia celular da Associação Portuguesa de Beneficência de São José do Rio Preto, SP.