O tarifaço e o verdadeiro desafio do Brasil
A resposta precisa ser técnica, proporcional e cirúrgica. O objetivo não deve ser simplesmente retaliar, mas aumentar a capacidade de negociação do Brasil, preservando empregos, investimentos e competitividade

A decisão dos Estados Unidos de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros renova um momento delicado das relações comerciais entre os dois países. Os impactos vão atingir empresas, produtores rurais, trabalhadores e cadeias produtivas inteiras. Diante desse cenário, a questão não é se o Brasil deve reagir, mas como deve fazê-lo.
Representantes da indústria, do agronegócio e de diversos setores econômicos têm defendido a manutenção do diálogo. Por outro lado, integrantes do próprio governo reconhecem que, neste momento, existe pouca margem para uma negociação rápida com Washington. Isso exige serenidade. Nem passividade diante de uma medida que prejudica interesses nacionais, nem impulsividade capaz de transformar um conflito comercial em uma guerra econômica sem vencedores.
A Lei da Reciprocidade Econômica é um instrumento importante para responder a medidas que afetem injustamente o país. Sua existência fortalece a posição brasileira e demonstra que o Estado possui mecanismos legítimos para defender seus interesses. Mas reciprocidade não pode ser confundida com retaliação automática.
A resposta precisa ser técnica, proporcional e cirúrgica. O objetivo não deve ser simplesmente retaliar, mas aumentar a capacidade de negociação do Brasil, preservando empregos, investimentos e competitividade. Em relações internacionais, inteligência estratégica costuma produzir resultados mais consistentes do que demonstrações de força.
Existe, entretanto, uma reflexão ainda mais importante. O tarifaço escancara uma realidade: nas relações internacionais, peso econômico também significa poder de negociação.
Os Estados Unidos possuem a maior economia do mundo, exercem enorme influência financeira, tecnológica e geopolítica e representam um mercado muito mais relevante para o Brasil do que nós representamos para eles. Essa assimetria naturalmente reduz nossa margem de barganha. Trata-se do reconhecimento de uma realidade: países mais fortes economicamente costumam negociar em posição mais confortável.
A pergunta, portanto, não deve limitar-se a como responder ao tarifaço. Devemos perguntar por que o Brasil ainda chega a situações como essa com capacidade de influência relativamente limitada.
Durante décadas, o país desperdiçou oportunidades de crescimento sustentado. Alternamos crises políticas, desequilíbrios fiscais, baixa produtividade, excesso de burocracia, insegurança jurídica e reformas incompletas. Enquanto outras nações aumentaram sua competitividade, o Brasil cresceu muito menos do que poderia. O resultado aparece justamente em momentos como este: nossa capacidade de negociação é menor porque nossa força econômica também é menor.
Há ainda outro risco que merece atenção. Estamos em ambiente pré-eleitoral, e seria um enorme equívoco transformar essa crise em palanque político. Nem governo nem oposição deveriam utilizar um problema dessa dimensão para alimentar disputas ideológicas enquanto os interesses nacionais ficam em segundo plano.
A melhor resposta ao tarifaço não é a retaliação pura e simples. Ela passa por uma estratégia mais ampla: negociar sempre que possível, utilizar a reciprocidade com responsabilidade, diversificar mercados, fortalecer nossa competitividade e ampliar a inserção internacional da economia brasileira.
No fim das contas, a maior lição dessa crise é a de que a verdadeira força de um país na mesa de negociações não nasce do discurso, mas da sua solidez. Quanto mais competitivo, produtivo e relevante for o Brasil, menor será sua vulnerabilidade diante de decisões tomadas por outras potências. Defender o interesse nacional, portanto, começa com a construção de um país economicamente mais forte.
Henry Atique
Advogado, professor, ex-presidente da OAB Rio Preto e conselheiro Estadual da OAB/SP