O reino que estacionou o futuro
Entre armas e rosas escolheram o espetáculo, mas esqueceram que o futuro não se constrói no palco e sim no chão onde as crianças brincam

Havia, em um reino não muito distante, desses que se orgulham de parecer grandiosos, um rei profundamente preocupado com a felicidade de sua plebe. Ou ao menos com a aparência dela. Decidido a elevar o espírito coletivo, Sua Majestade anunciou um feito memorável: traria menestréis estrangeiros, artistas de renome além-mar, cujo brasão ostentava, com poética ambiguidade, o lema “armas e rosas”.
Dizia-se que dominavam tanto a delicadeza quanto o estrondo. E o povo, como povo é, acreditou. Na noite marcada, 30 mil súditos atenderam ao chamado real. Vieram de todos os cantos: camponeses, artesãos, comerciantes, crianças nos ombros dos pais. O campo se transformou em mar humano, pulsante, expectante. E então começou. As cordas vibraram como trovões domesticados. As vozes cortaram o ar com uma mistura de melancolia e fúria. Havia beleza, havia excesso, havia catarse. Alguns choraram. Outros riram. Muitos esqueceram de si. Por algumas horas, o reino foi perfeito. O rei, satisfeito, murmurou que era para isso que governava.
Enquanto os olhos estavam voltados para o palco e os corações ocupados com refrões estrangeiros, homens silenciosos trabalharam. Não usavam coroas nem carregavam instrumentos musicais. Eram homens maus, a mando de quem, não se sabe, e carregavam tinta, concreto e contratos. Na calada da noite, essa velha cúmplice das decisões necessárias, os parquinhos infantis foram tomados.
Escorregadores deram lugar a vagas numeradas. Balanços desapareceram como se nunca tivessem existido. Gangorras foram substituídas por linhas perfeitamente retas, porque, afinal, ordem é essencial. E onde antes havia caos criativo, instalou-se a mais eficiente imobilidade. Na manhã seguinte, as crianças acordaram e foram brincar, ou tentaram. Encontraram silêncio onde antes havia convite. As cores haviam sido apagadas. O chão, agora rígido e marcado, não sugeria histórias, apenas limites. Uma criança perguntou onde foi parar o parquinho. Um adulto respondeu, com a tranquilidade de quem repete verdades prontas, que havia sido substituído por algo mais útil. Outro completou que elas ainda tinham o show de ontem. As crianças se entreolharam. Nenhuma delas sabia brincar com lembranças. Ao saber do ocorrido, o rei, tomado por sua conhecida eficiência, ordenou que se cortassem as cabeças dos homens maus, o que trouxe imediato alívio administrativo, embora nenhuma compreensão dos fatos. Ainda não havia começado a investigar.
O primeiro-ministro, diligente como sempre, apresentou relatórios impecáveis, cheios de números reconfortantes e conclusões definitivas, cuidadosamente organizados para que ninguém precisasse fazer perguntas incômodas, sobretudo aquela antiga máxima inconveniente, “follow the money”, que permaneceu discretamente escondida entre as páginas que ninguém leu.
Nos dias que se seguiram, o reino atingiu algo notável: eficiência máxima e imaginação mínima. Os adultos continuaram satisfeitos. As crianças se adaptaram. Algumas correram entre carros estacionados, aprendendo cedo demais sobre limites rígidos. Outras ficaram quietas, como se aguardassem autorização para existir. Algumas inventaram brincadeiras menores, comprimidas, versões reduzidas de algo que nem sabiam mais nomear. O rei, ao observar relatórios, concluiu que nunca haviam sido tão bem-sucedidos. Vai abrir investigação? Os príncipes da câmara real vão fazer CPI? Cenas dos próximos capítulos… E talvez estivesse certo. Afinal, naquele reino, haviam aprendido uma verdade sofisticada: é possível emocionar multidões por uma noite inteira e, ao mesmo tempo, empobrecer silenciosamente todas as manhãs seguintes. Moral da fábula: entre armas e rosas escolheram o espetáculo, mas esqueceram que o futuro não se constrói no palco e sim no chão onde as crianças brincam.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme.