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PAINEL DE IDEIAS

O rei da faca

Impossível saber se tudo o que diziam a respeito dele era verdade. Baiano era homem de poucas palavras, nada de revelar coisas do passado, muito menos confirmar a lenda de que houvera, um dia, lá atrás, matado a própria mulher

por José Luís Rey
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
José Luís Rey (Divulgação)
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José Luís Rey (Divulgação)
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Antenor Martins de Oliveira, o “Baiano”, era um sujeito forte, metido a valentão, que se autoproclamava o “rei da faca”. Dizem que gostava de recorrer aos instrumentos cortantes para resolver as paradas indigestas que encontrava pela vida.

Impossível saber se tudo o que diziam a respeito dele era verdade. Baiano era homem de poucas palavras, nada de revelar coisas do passado, muito menos confirmar a lenda de que houvera, um dia, lá atrás, matado a própria mulher. Com uma faca…

Os cabelos esbranquiçados já lhe denunciavam os 70 anos, um pouco mais, um pouco menos, na época em que subia, dois a dois, os degraus da escadaria da Galeria Bassitt e marchava em passo de quem está por perder o ônibus até a rádio Independência. Ali entregava os seus alfarrábios – invariavelmente, uma folha de papel almaço, as quatro páginas preenchidas, linha a linha, por manuscritos ininteligíveis que haveriam de ser decifrados, ao vivo, pelos locutores do programa “Na Várzea Quem Canta é o Galo”, um espaço exclusivo na hora do almoço para o futebol varzeano da região.

Baiano era o maior “tratador” de jogos da periferia de Rio Preto e das fazendas da região. Alguém que, a troco de módicos honorários, colocava frente a frente as diferentes equipes que o procuravam em seu “escritório” – uma mesinha no “Bar das Crianças”, do Tininho, na Vila Esplanada. Cuidava, como se vê, também da divulgação dos jogos pelo rádio e era desse jeito que até mesmo os times que o contratavam ficavam sabendo onde e contra quem iriam jogar no domingo seguinte. Eram 80, 90, às vezes mais de uma centena de jogos a cada final de semana, uma enxurrada de informações que ocupava uns dez minutos de falatório dos dois apresentadores.

E ai do time que deixasse de comparecer ao compromisso agendado ou arrumasse confusão durante a partida. Era implacavelmente proscrito, suspenso indefinidamente, execrado publicamente até pelo rádio, moralmente esquartejado.

Como marcava os jogos sem sequer conhecer os campos onde eles aconteceriam, às vezes recebia uma ou outra reclamação dos seus contratantes:

— Caramba, Baiano, lá em Ida Iolanda não dá pra jogar, pô!

— Ué, por que?

— O campo é um murundum. O meio fica no alto e um goleiro na ponta dos pés consegue, no máximo, enxergar a cabeça do outro goleiro…

JOSÉ LUÍS REY

Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos