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Olhar 360

O que resta quando a máquina pensa por nós?

Permanecer humano, hoje, exige decisão. E talvez seja essa a contribuição mais duradoura da Magnifica Humanitas: lembrar-nos de que o progresso verdadeiro não se mede pela velocidade, mas pela profundidade

por Marco Feitosa
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Marco Feitosa (Marco Feitosa)
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Em maio de 2026, o Papa Leão 14 ofereceu uma resposta, não simples, não tranquilizadora, mas necessária. Sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, nasceu de uma inquietação que vai além do catolicismo: estamos construindo um mundo que cabe dentro da humanidade ou uma humanidade que cabe dentro de um sistema?

O documento não condena a inteligência artificial. Seria ingênuo. Condena, isso sim, a ilusão de que ela seria neutra, que existiria fora da história, desencarnada de intenções, pura em sua frieza calculada. Toda tecnologia carrega o rosto de quem a concebeu, os interesses de quem a financiou, os valores (ou a ausência deles) de quem a governa. Isso não é dado técnico. É uma escolha política, moral e civilizatória.

Leão 14 publicou sua encíclica exatamente no 135º aniversário da importantíssima Rerum Novarum, o histórico documento de Leão 13 que enfrentou a questão operária na Revolução Industrial. A coincidência não é acidental. Cada revolução técnica exige que a ética corra na mesma velocidade que a inovação e isso raramente acontece.

O coração do documento é uma afirmação que merece ser lida devagar e com extrema atenção: na era da inteligência artificial, a dignidade humana corre o risco de ser obscurecida por novas formas de desumanização. Não por ficção científica, mas por processos cotidianos, quando uma decisão de emprego é tomada por algoritmo, quando um diagnóstico clínico dispensa o olhar do médico, quando a relação entre pessoas é mediada e moldada por sistemas que não sabem o que é perder alguém e não possuem um aspecto inerente ao que nos torna mais humano: a capacidade de amar e de, principalmente, perdoar.

Para dar substância a esse risco, o Papa recorre a dois símbolos bíblicos. Babel: o projeto técnico que escala céus, mas perde a capacidade de comunicar. Jerusalém: a cidade que se reconstrói não pela genialidade individual, mas pela corresponsabilidade coletiva, pelo diálogo, pelo trabalho compartilhado. Essa metáfora nomeia dois modos distintos de entender o progresso: aquele que domina e aquele que cuida.

O Papa pontua que as decisões fundamentais para a vida das pessoas não podem ser delegadas às máquinas e que a responsabilidade moral deve permanecer sempre nas mãos do ser humano, pois devemos reconhecer que há dimensões da existência como o sofrimento, o amor, o perdão e a dor que não cabem em nenhum modelo computacional.

A desumanização do conhecimento (e esse é o ponto que a encíclica ilumina com mais força) está se instalando na medida em que confundimos o mensurável com o real, o processável com o verdadeiro, o eficiente com o bom. Reduzimos o ser humano àquilo que pode ser capturado em dados, índices e relatórios, chamando a isso de racionalidade.

Mas há coisas que nenhum modelo prevê: o instante em que alguém decide amar e perdoar. A escolha de ficar ao lado de quem não tem mais nada a oferecer. A pergunta que uma criança faz e que desfaz anos de certeza. Esses momentos não são ineficiências a corrigir. São o núcleo do que nos torna humanos.

A Magnifica Humanitas não é um documento só para católicos. É um espelho para qualquer civilização que, embriagada pelo poder da técnica, esquece que o conhecimento existe para servir à vida e não o contrário.

Permanecer humano, hoje, exige decisão. E talvez seja essa a contribuição mais duradoura da Magnifica Humanitas: lembrar-nos de que o progresso verdadeiro não se mede pela velocidade, mas pela profundidade e que nenhuma máquina, por mais sofisticada, poderá substituir o que há de mais magnífico em nós: a capacidade de nos reconhecermos uns nos outros.

Marco Feitosa

Advogado e coordenador do Estado de São Paulo do Movimento Livres