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ARTIGO

O que a Copa do Mundo realmente esconde

É um ecossistema regado a polêmicas e uma avalanche de plataformas de apostas

por Aline Stones
Publicado em 07/07/2026 às 20:01Atualizado em 07/07/2026 às 20:07
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Eu não entendo de futebol (alô, Romário!), mas compreendo perfeitamente a política social e a dinâmica econômica. A Copa do Mundo, longe de ser a comunhão global que o marketing vende, consolidou-se como uma festa elitizada, protagonizada por recortes muito específicos de masculinidade e poder. Ela não representa uma universalidade.

A começar pelo fato de que, para uma seleção pisar naquele gramado, seu país precisa ter desfrutado de condições estruturais e históricas favoráveis para acumular pontuação. Não existe equidade geopolítica no mundo real, e é uma ilusão ingênua supor que a Copa represente um jogo justo.

Nesta era marcada pelas pautas identitárias e humanitárias, é impossível assistir aos jogos sem analisar a fratura política que divide o Norte e o Sul global; a linha que aparta etnias, imperialismo e explorados. Tomemos a Noruega como exemplo dessa hipocrisia civilizatória: enquanto o país ostenta um alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e regulamenta o mercado de apostas (bets), em seu território, uma empresa de capital norueguês opera na Amazônia, poluindo rios e mares com metais pesados. A sustentabilidade do Norte financia-se pela degradação e pelo extrativismo no Sul.

O extracampo do futebol moderno transborda episódios de racismo, xenofobia e graves acusações de abuso sexual. Isso escancara que a urgência por um letramento social e racial não é exclusividade brasileira; o mundo inteiro assiste a uma profunda descompensação ética. Para além das quatro linhas, lidamos com reflexos de um ambiente global contaminado por discursos preconceituosos de lideranças como Donald Trump e pela conivência diante de massacres humanitários, a exemplo dos ataques em Gaza. O esporte, capturado por essa engrenagem, acaba servindo para silenciar as dores da realidade.

Que tipo de futebol é esse? Um ecossistema regado a polêmicas, aparições egóicas e uma avalanche predatória de plataformas de apostas. Nos bastidores e camarotes, perpetua-se um padrão estético machista, onde homens ricos surgem acompanhados por mulheres instrumentalizadas em discursos fúteis e vazios de substância crítica, e a falta de desporto esportivo?

Para nós, trabalhadores, o suposto "feriado" em dias de jogos atua apenas como um breve anestésico para o desgaste cotidiano de quem sustenta a economia. Diante de um espetáculo bilionário que aliena em vez de unir, o cenário atual deixa evidente que o futebol perdeu sua essência popular. Para transformar essa realidade e construir um amanhã justo, o mundo precisa de menos idolatrismos e de muito mais coletividade.

Aline Stones

Professora pedagoga; Doutoranda em educação pela UFSCar. Militante anticolonial. Membro do coletivo Mulheres na política.