O prefeito que ainda não chegou

Há quase dois anos, escrevi neste espaço o artigo “O Prefeito que Precisamos”. A lista era básica: atração de empresas, mobilidade urbana moderna, aproveitamento cultural do Complexo Swift, política de conservação de água.
Passado esse tempo, o que mudou? O Parque Tecnológico, é justo reconhecer, teve movimento real. Venda de lotes, chegada de novas empresas, números de faturamento divulgados pela Prefeitura. A cidade aparece em rankings, recebe eventos, fala-se em “Vale do Silício Caipira”. É um avanço, pontual.
Mas um parque tecnológico não é uma cidade. E é aí que o discurso da administração tropeça na realidade. Enquanto se celebra a chegada de startups, o resto da agenda continua onde estava. A mobilidade urbana segue presa ao modelo de décadas atrás. O Complexo Swift, que poderia ser um centro cultural pulsante, continua vazio na maior parte do ano. A conservação de água, que evitaria captações caras e mais dívida, não saiu do papel.
E a pergunta mais incômoda permanece sem resposta: alguma indústria de peso decidiu se instalar em Rio Preto neste período? Ou seguimos vendo empresas relevantes irem embora, como aconteceu com a 3M?
Há um ponto que poucos discutem. Rio Preto está na rota de exportação das commodities que saem do Centro-Oeste rumo aos portos, caminho obrigatório para boa parte da safra de grãos e proteína animal que cruza o Estado. Some-se à produção agrícola da própria região (cana, laranja, grãos, proteína animal) e o resultado é um ponto estratégico que poucas cidades do interior reúnem.
Mesmo assim, quase nada dessa riqueza, que passa ou nasce aqui, volta na forma de indústria de transformação, aquela que agrega valor antes do produto seguir adiante. A gestão fala em fortalecer o agronegócio no Parque Tecnológico, mas o discurso para nesse ponto.
Onde estão os incentivos para quem quiser instalar uma planta de processamento ou beneficiamento aqui, no meio do caminho? É o tipo de indústria que gera emprego qualificado e fixa renda. Continua fora da agenda.
O problema não é falta de potencial. Rio Preto tem localização estratégica, aeroporto, malha viária, universidades, mão de obra qualificada e qualificável. O problema é a prioridade que a administração escolhe defender.
O ambiente para negócios em Rio Preto não é hostil por acidente. É hostil porque a gestão pública trata desenvolvimento econômico como evento de inauguração, não como política contínua. Um seminário de tecnologia gera boas fotos. Atrair uma indústria exige negociação difícil e, muitas vezes, enfrentar interesses que preferem a cidade do jeito que está.
Há outro detalhe que pesa no humor de quem decide investir: a forma como a gestão lida com quem discorda dela. Não é segredo que a máquina pública, em vários momentos, tem sido usada mais para responder a críticos do que para resolver problemas.
Não é exclusividade desta administração, outras já fizeram o mesmo. Mas a frequência com que isso ocorre hoje cria um ambiente de insegurança que qualquer empresário percebe rápido. Ninguém investe pesado numa cidade onde a relação entre poder público e sociedade parece, antes de tudo, uma disputa pessoal.
Empresas grandes fazem due diligence. Olham clima político, segurança jurídica, capacidade de diálogo institucional. E o que encontram aqui não passa boa impressão. Isso já aconteceu em 1991. Takeo Hirata, primeiro secretário da embaixada do Japão, veio avaliar Rio Preto para investimentos. Não se impressionou. Trinta e cinco anos depois, o diagnóstico pouco mudou.
Quase 2 anos depois do artigo anterior, a engrenagem que deveria atrair investimento continua girando em falso. Há vitrines bonitas. Vitrine não gera emprego em escala, não muda indicadores sociais, não tira a cidade da sombra de Olímpia, Mirassol e Votuporanga. Rio Preto continua esperando o prefeito que sabe a diferença entre aparecer e construir.
Beto Braga
É empresário