Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
EDITORIAL

O preço da escolha

Ao optar pela solução integrada e desistir do contorno ferroviário, a região preservou os trilhos urbanos e manteve um problema que ainda produz tragédias

por Da Redação
Publicado em 25/07/2026 às 21:01
Editorial (Divulgação)
Galeria
Editorial (Divulgação)
Ouvir matéria

A morte de Moacir Faustino Tessari, atropelado por um trem na última sexta-feira em Mirassol, não pode ser tratada como mais um episódio isolado. Menos de um mês antes, a aposentada Neiva Gussonato Nadal, de 82 anos, também perdeu a vida ao tentar atravessar a linha férrea na cidade. São duas tragédias separadas por poucos dias e unidas por uma mesma realidade: a ferrovia continua dividindo bairros, impondo riscos e cobrando vidas em plena área urbana.

É evidente que toda travessia exige cautela e que a concessionária cumpre protocolos de segurança. Também são importantes campanhas educativas, sinalização, passarelas e viadutos. Mas nenhuma dessas medidas elimina o problema em sua essência. Apenas procuram reduzir os efeitos de uma convivência que jamais deveria ter sido perpetuada.

Rio Preto, Mirassol e Cedral tiveram, pouco anos atrás, a oportunidade de romper definitivamente esse ciclo. O projeto do contorno ferroviário retiraria a circulação dos trens cargueiros das áreas urbanas, trazendo ganhos em segurança, mobilidade e qualidade de vida. No entanto, a pressão de interesses diversos prevaleceu, e a proposta foi substituída pela chamada solução integrada, baseada na construção de obras viárias, mas preservando os trilhos exatamente onde sempre estiveram.

Perdeu a região uma oportunidade histórica. Optou-se por adaptar as cidades à ferrovia, quando o mais sensato seria adaptar a ferrovia às cidades - sem a discussão abobalhada e improdutiva sobre quem chegou primeiro. Os viadutos aliviam o trânsito. As passarelas oferecem alternativas de travessia. Nenhuma delas, porém, impede que pessoas continuem convivendo diariamente com locomotivas de centenas de toneladas passando ao lado de casas, escolas e comércios.

A frase do irmão de Moacir resume um sentimento que há muito ecoa entre moradores: "Tinha que arrancar esses trilhos daqui". Pode parecer um desabafo, mas traduz uma percepção que os sucessivos acidentes insistem em reforçar. Enquanto os trilhos permanecerem cortando os centros urbanos, o risco também permanecerá.

As mortes recentes em Mirassol servem como doloroso lembrete de que decisões de infraestrutura produzem consequências por décadas. A região escolheu um caminho menos ousado e mais imediato. Infelizmente, continua pagando um preço alto por essa escolha. E, enquanto a ferrovia permanecer atravessando cidades, será difícil afirmar que tudo o que poderia ter sido feito realmente foi.