O poder da bondade

Após doze edições do “Pop Rua Jud” ao longo de quatro anos, é possível afirmar que a nossa cidade consolidou uma relevante política pública social, estruturada pelo poder público e viabilizada pela atuação conjunta de voluntários de instituições públicas e privadas. A 12ª edição, realizada em 29 de março de 2026 no Centro Pop, reuniu 56 instituições e 329 voluntários, responsáveis por mais de 3.700 atendimentos, evidenciando não apenas a expressiva demanda social existente, mas também o potencial transformador da ação colaborativa.
O mutirão atende, prioritariamente, pessoas em situação de rua, mas também contempla a população em extrema pobreza e de baixa renda, além de cidadãos com acesso limitado a direitos básicos, sem documentação ou em busca de apoio emergencial. Nesse contexto, são oferecidos serviços como alimentação, cuidados pessoais, incluindo banho e vestuário, atendimento de saúde, encaminhamentos para internação, orientações jurídicas, acesso a benefícios sociais e acolhimento para aqueles que necessitam de abrigo.
Em 2022, o chefe do Poder Executivo convidou o Poder Judiciário a integrar esforços no enfrentamento dessa temática. A partir desse diálogo institucional, e com base na Resolução 425 do CNJ, os mutirões foram estruturados, contando, desde então, com o apoio contínuo da Prefeitura Municipal, cujo atual gestor reafirmou o compromisso com essa atuação conjunta. Contudo, para além da articulação entre os poderes públicos, é o trabalho voluntário que se destaca como o principal motor dessa iniciativa.
Sem a dedicação de voluntários oriundos de entidades assistenciais, universidades, empresas, comunidades terapêuticas, órgãos públicos e organizações religiosas, como a Pastoral do Povo em Situação de Rua, o poder público, sozinho, dificilmente alcançaria a mesma amplitude e efetividade. Os resultados concretos já se tornam visíveis, como a desarticulação de uma “cracolândia” e a redução de ocupações precárias nas proximidades do Centro Pop.
A experiência acumulada demonstra que uma cidade formada por pessoas comprometidas com a solidariedade e o bem comum, capazes de superar a tentação de apenas atribuir culpas e de se unir em torno de ações concretas, pautadas na legalidade, desenvolve a capacidade não apenas de enfrentar desafios complexos, mas também de promover transformações reais. Nesse ambiente, nenhum voluntário atua movido por soluções simplistas ou discursos excludentes e estridentes, mas por uma disposição genuína de acolher e amparar o próximo.
Como observa a escritora Margaret J. Wheatley, não há poder maior do que o de uma comunidade que, em vez de se limitar a perguntar “o que está errado?”, passa a indagar “o que é possível fazer para ajudar?”. A autora destaca a importância de reconhecer os saberes de cada indivíduo e de compreender que soluções criativas emergem das conexões humanas. A escuta genuína aproxima as pessoas, enquanto a confiança na generosidade humana e no diálogo significativo fortalece os vínculos sociais.
É justamente essa postura que, ao longo desses quatro anos, tem produzido um efeito que não esperávamos. Pessoas antes desalentadas passam a reencontrar esperança ao perceberem que não estão sozinhas. Vem-se criando um processo de reconstrução que não se limita aos espaços físicos da cidade, mas alcança, acima de tudo, a fé das pessoas umas nas outras, a fé nas instituições. Não por acaso, a cada mutirão, cresce o número de pessoas que deixam as ruas, impulsionadas, principalmente, pela dedicação de voluntários que fazem da empatia e do cuidado desvelado às feridas físicas e emocionais dos mais vulneráveis a materialização da bondade humana.
EVANDRO PELARIN
Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras