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ARTIGO

O peso de existir em silêncio

O preconceito nasce nas pequenas normalizações e no silêncio diante da exclusão

por Rayane Rodrigues de Souza
Publicado em 12/06/2026 às 18:38Atualizado em 12/06/2026 às 18:42
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Viver sendo uma mulher LGBTQIAPN+ em uma cidade conservadora é perceber, desde cedo, que algumas existências ainda causam desconforto social. Em São José do Rio Preto, onde valores tradicionais seguem presentes na política, religião e sociedade, muitas mulheres aprendem a esconder partes de si.

Esse apagamento raramente acontece de forma explícita. Ele aparece nos comentários tratados como brincadeira, nos olhares atravessados e na sensação de que formas de existir ainda precisam ser justificadas. Em muitos espaços, mulheres da comunidade seguem vistas como fora do padrão, como se suas identidades dependessem da aprovação coletiva para serem legítimas.

Desde pequenas, meninas são ensinadas a seguir modelos construídos pela heteronormatividade. Crescem ouvindo histórias em que o amor quase sempre depende da presença masculina, enquanto experiências fora desse padrão são tratadas como exagero ou confusão.

Em cidades conservadoras, existe uma cobrança silenciosa para que mulheres ocupem papéis aceitáveis e não desafiem estruturas tradicionais. Quando uma mulher LGBTQIAPN+ rompe com essa lógica, enfrenta o desconforto de uma sociedade que ainda reage mal ao que foge da norma. Muitas escondem relacionamentos no trabalho, silenciam partes da própria vida em casa e aprendem a medir palavras, gestos e afetos por medo de julgamento.

Existe também um peso histórico nisso tudo. Durante muito tempo, o patriarcado definiu o homem como centro das relações afetivas, sociais e políticas. Quando uma mulher existe fora dessa lógica, desafia estruturas que ainda tentam controlar corpos e formas de existir.

A obra "O Conto da Aia" aborda esse ponto ao retratar uma sociedade em que direitos são retirados aos poucos, enquanto a opressão passa a ser vista como rotina. Em determinado momento, June Osborne afirma: “Agora estou acordada para o mundo. Antes eu estava dormindo. Foi assim que deixamos isso acontecer.”

A frase funciona como alerta. O preconceito nasce nas pequenas normalizações e no silêncio diante da exclusão.

Reconhecer os atravessamentos vividos por mulheres LGBTQIAPN+ em São José do Rio Preto não é atacar a cidade. É desejar que ela amadureça socialmente. Que nenhuma existência precise continuar apenas sobrevivendo, mas sim vivendo.

Rayane Rodrigues de Souza

Estudante de Direito, ativista em defesa dos direitos das mulheres e integrante do coletivo Mulheres na Política.