O papel que não pode ser rebaixado
O jornalismo não nasceu para confortar o poder. Nasceu para incomodá-lo quando necessário, para traduzir o que os gestores públicos fazem com o dinheiro e com as decisões que afetam a vida de todos

Ontem foi o Dia do Jornalista. Uma data que, na maior parte das vezes, passa entre elogios protocolares e posts de homenagem nas redes sociais. Mas que merece, de vez em quando, uma reflexão mais honesta sobre o que essa profissão representa para a democracia, e o que acontece quando ela deixa de cumprir esse papel.
Existe uma cena que se repete na política brasileira e que raramente ganha o comentário que merece: a entrevista em que ninguém fica desconfortável.
O político entra, senta, sorri, responde tudo com a fluidez de quem ensaiou bem, às vezes emenda uma observação simpática e vai embora praticamente melhor do que chegou. O jornalista agradece a presença. Corta. Sobe o artigo, o post ou o vídeo. Parece programa de variedades. Mas foi apresentado como jornalismo.
O jornalismo não nasceu para confortar o poder. Nasceu para incomodá-lo quando necessário, para traduzir o que os gestores públicos fazem com o dinheiro e com as decisões que afetam a vida de todos. Não é uma função decorativa. Não é um serviço de divulgação com redação própria.
É controle. É fiscalização exercida pela sociedade, por meio de pessoas treinadas para perguntar o que o cidadão comum não tem como perguntar. A pergunta que o político preferia não ouvir. Aquela que desmonta a resposta pronta e interrompe o roteiro ensaiado.
Quando esse papel funciona de verdade, a democracia respira melhor. Quando ele se apaga, construído aos poucos por concessões editoriais, dependências econômicas e proximidades perigosas com o poder, o espaço que fica vazio não permanece vazio por muito tempo. Ele é ocupado por narrativas de quem tem interesse em não ser questionado.
Vale dizer com clareza: o bom jornalismo existe, resiste e faz diferença. Há repórteres que pagam caro pelo exercício honesto da profissão. Há veículos que constrangem gestores públicos, revelam contratos irregulares, identificam contradições em tempo real. Isso importa. E merece ser reconhecido sem rodeios.
O que também merece atenção é o risco oposto. Não o jornalismo que erra por excesso de coragem, mas o que se apaga por excesso de cautela. O que evita perguntas difíceis para preservar o acesso. O que trata político como parceiro de pauta em vez de alvo legítimo de questionamento. O que entrevista para confirmar, não para questionar.
Esse processo raramente é declarado. Ninguém decide, de forma consciente, "a partir de hoje serei assessor com microfone melhor". Vai acontecendo por acumulação: uma pergunta que fica de fora porque poderia ser mal interpretada, uma insistência evitada para não fechar portas, um silêncio diante de uma resposta evasiva que precisava ser pressionada.
Quando se percebe o resultado, o clima da entrevista está ótimo. E esse é exatamente o problema. A democracia não se sustenta no conforto. Ela se sustenta no atrito qualificado, no questionamento permanente de quem detém poder.
Esta coluna tem insistido nesse ponto: quando o Legislativo abandona a fiscalização, quando o Executivo governa sem transparência, quando o Judiciário age sem controlar seus próprios excessos, o preço é pago pela população.
O mesmo vale para quando o jornalismo abandona o seu papel. A diferença é que o jornalismo não presta contas ao eleitor nem ao chefe de gabinete. Presta contas ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador. Ao cidadão que precisa de informação para tomar decisões, para votar com consciência, para cobrar o que foi prometido e denunciar o que foi desviado. Assessoria de imprensa existe para proteger a imagem de quem a contrata. Jornalismo existe para servir a quem lê. São funções opostas. Confundi-las não é apenas um erro técnico. É uma escolha.
É por esse cidadão que o bom jornalismo existe. E é por esse mesmo cidadão que precisa continuar existindo. Não como canal de transmissão. Como contrapoder.
Beto Braga
É empresário