Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ARTIGO

O papel do Édipo numa sociedade adoecida

A criança com o Édipo ferido dá num adulto regredido a uma psique infantilizada

por Fernanda Caprio
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

O mito grego de Édipo é uma alegoria freudiana usada para sedimentar a teoria psicanalítica do complexo de castração, em que a criança de 3 a 5 anos começa a internalizar regras e consequências de infringí-las. Se isso ocorre de forma satisfatória, o ser em formação aprenderá que crescer é lidar com limites e se responsabilizar. Se ocorre de forma patológica, o adulto lidará com muita culpa e medo. E, se ocorrer de forma insuficiente, será incapaz de lidar com regras.

Para Freud, o Édipo risca a linha que permite à criança aprender a lidar com suas metas inibidas (frustrações), de forma que o futuro adulto fique confortável no meio social. Mas o que temos observado é uma sociedade que reage às frustrações com agressividade. Freud previu isso quando afirmou que, na massa, o indivíduo agressivo dilui sua culpa no grupo.

O ditador Júlio César foi morto por alguns senadores com mais de 20 facadas. Agatha Christie, em Assassinato no Expresso do Oriente, narrou que vários passageiros apunhalaram um deles. Em "O Perfume", de Patrick Süskind, uma turba enlouquecida devorou Jean-Baptiste. Em todas estas narrativas, a ação em grupo protegeu o autor da ferida fatal. Porém, para mergulhar na massa, é necessário mimetizar (imitar) o outro. São palavras, chavões, modas, etc., que nos tornam seguidores.

Na Revolução dos Bichos, de Orwell, foi criada uma lei de pacificação na fazenda do conto: todos os animais são iguais. Após alguns conflitos, foi adicionado: mas alguns são mais iguais que os outros. É inegável que imitar frustra, pois um indivíduo busca obter relevância. Isso é de alguma forma suprido por selos e cupons, mas não satisfaz a crise dopaminérgica. A pressão de igualar desencadeia o conflito.

A criança com o Édipo ferido dá num adulto regredido a uma psique infantilizada, que passa a não suportar sua carga de renúncias pessoais. E aí ele ferve, exige, grita, descumpre o contrato social. É defesa, mas o efeito é de ataque. Quando não explode, implode, e a frustração é transferida a outro, como jovens cooptados nas redes por alguém que parece mais forte.

A superação deste ciclo edipiano mal resolvido dependeria da assunção de responsabilidade pelo próprio destino. Isso nos leva à necessidade de aceitar que harmonia não é forçar os espaços, e sim lidar melhor com nossas metas inibidas, sem que isso implique projetar nossas insatisfações no mundo.

Fernanda Caprio

Psicanalista.