PAINEL DE IDEIAS

O outono da vida

O outono de cada um depende do que se viveu nos verões passados. As conquistas, as perdas, as escolhas e, principalmente, o autoconhecimento

por Sérgio Clementino
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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O calendário mostra que acabamos de atravessar o equinócio, aquele marco em que o dia e a noite são iguais. A partir de agora, o vento começa a soprar manhãs um pouco mais frias, avisando que o sol aparece mais tarde. O outono chegou sem aviso, mudando o clima e a paisagem. A palavra outono carrega um peso ancestral. Do latim “autumnus”, sua etimologia nos remete à ideia de "aumento" ou "plenitude". É um paradoxo linguístico: o nome sugere a colheita farta, a produtividade da terra. Mas nossos olhos veem justamente o contrário, o despojamento. No hemisfério norte, a associação com "queda" (fall) é mais literal. Para nós, a raiz latina lembra que a natureza tem seu momento de colher o que foi plantado sob o sol escaldante do verão. É a estação do "pronto", do fruto que está maduro demais para continuar preso à árvore.

Para alguns, é um espetáculo de elegância. Há beleza na decadência das folhas, na luz mais oblíqua, tornando tudo mais dourado. Para esses entusiastas, o outono é o alívio após a tirania do calor. Para outros, o outono é o prelúdio da sombra, a melancolia do encurtamento dos dias. Ver a árvore se despindo é um lembrete de que nada permanece. É a estação da saudade de algo que nem sempre sabemos nomear. Enquanto uns veem renovação no desapego, outros veem apenas lembrança do que um dia foi vida.

Não à toa, a maturidade humana é chamada de "outono da vida". Geralmente contada a partir da virada dos 50, é aquela fase onde a pressa do verão (as ambições desmedidas, a correria da afirmação pessoal) dá lugar à contemplação mais silenciosa. É o momento da nossa própria "colheita": o que construímos, quem restou ao nosso lado, quais frutos vingaram. A alma deixa de buscar a expansão desenfreada para valorizar a profundidade. Viver o próprio outono é enfrentar o desafio da impermanência. Assim como a árvore precisa deixar a folha cair para sobreviver ao inverno que virá, na maturidade o ser humano precisa aprender a arte de soltar. Soltar expectativas irreais, abrir mão da necessidade de controle e aceitar que a beleza mudou de textura. Não há mais o brilho da juventude, mas a complexidade de quem já viveu tempestades.

O outono de cada um depende do que se viveu nos verões passados. As conquistas, as perdas, as escolhas e, principalmente, o autoconhecimento. O outono da vida depende não do tempo que passou, mas da vida que se acumulou. É a estação de selecionar o que é essencial para levar no coração durante os dias mais frios que virão. Ao final, o outono nos ensina que o despojamento não é uma perda, mas uma preparação. É o tempo de se despir do que é supérfluo para proteger a essência. De soltar as vaidades desnecessárias, os pesos inúteis e as expectativas alheias. Há uma beleza melancólica, porém libertadora, em entender que nem tudo precisa ser carregado para sempre. No fundo, entramos no outono da vida quando percebemos que o tempo é um recurso precioso demais para ser gasto com o que não tem alma.

SÉRGIO CLEMENTINO

Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras