O mercado além do Short Stay
A aquisição da casa própria continua sendo um objetivo relevante para as famílias brasileiras

O mercado imobiliário brasileiro atravessa uma transformação relevante, e ela está mais associada à mudança de comportamento do consumidor do que, necessariamente, à construção civil em si.
Nos últimos anos, o setor foi impulsionado por crédito mais acessível, elevada velocidade de comercialização e pela expansão das plataformas de locação de curta temporada, como Airbnb. Era uma dinâmica de mercado marcada por decisões mais aceleradas, em que muitos compradores adquiriam imóveis tanto para moradia quanto buscando retorno financeiro imediato. Hoje, essa lógica começa a se reposicionar.
O crédito imobiliário encareceu, as instituições financeiras elevaram o nível de exigência para concessão e o consumidor passou a adotar uma postura mais cautelosa nas decisões patrimoniais. Paralelamente, a recente consolidação do entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ), permitindo que condomínios restrinjam locações de curta temporada, adicionou um novo elemento regulatório ao setor.
Embora sejam movimentos distintos, ambos conduzem a uma consequência semelhante: o fortalecimento da locação residencial tradicional e uma relação mais racional e estratégica com o imóvel.
A aquisição da casa própria continua sendo um objetivo relevante para a maior parte das famílias brasileiras. O que mudou foi o timing dessa decisão. Muitas pessoas passaram a priorizar reorganização financeira e previsibilidade antes de assumir financiamentos de longo prazo. Outras optam por alugar inicialmente, compreender melhor a dinâmica da região e, somente depois, converter essa relação em aquisição patrimonial.
Existe também uma mudança geracional bastante evidente. Mobilidade, flexibilidade e equilíbrio financeiro passaram a ter peso maior na decisão de moradia.
Ao mesmo tempo, a decisão do STJ também altera o comportamento do investidor imobiliário. Durante determinado período, muitos imóveis compactos foram adquiridos com foco quase exclusivo na rentabilidade acelerada do short stay. Agora, além da localização e do potencial de retorno, passam a fazer parte da análise fatores como convenção condominial, segurança jurídica, perfil operacional e sustentabilidade do ativo no longo prazo.
Esse cenário torna o mercado mais técnico, seletivo e consultivo. O cliente já não procura apenas um imóvel. Ele busca orientação, previsibilidade e segurança para a tomada de decisão em um ambiente mais complexo e regulado.
No fim, o setor imobiliário permanece sólido. O que muda é a lógica de funcionamento do mercado. A velocidade deixa de ser o único indicador relevante, abrindo espaço para um ambiente que valoriza cada vez mais consistência operacional, inteligência estratégica e relacionamento de longo prazo.
Bruno Malvezi
CEO do Grupo IMPPER.