O medo interdito

Segurança é a primeira necessidade de sobrevivência, e o medo, um sinal de alerta diante de uma ameaça real ou percebida, que prepara o organismo para proteger-se. A biologia compreende muito bem isso. O problema começa quando a cultura inventa o conceito de invulnerabilidade. Meninos são socializados com máximas absurdas: "homem não chora. Não tenha medo. Seja forte". Meninas devem ser frágeis e cuidadas por seus homens. Assim, eles trabalham, pagam contas e tomam decisões. Elas se domesticam e criam os filhos, sem dinheiro e sem vontades próprias.
Negar o medo não significa eliminar o perigo. A pedagogia da ocultação dos sentimentos é um desserviço com consequências catastróficas. Admitir o medo é reconhecer limites, riscos e incertezas, condição primordial para a prudência. Homens o negam não porque não o sintam, mas porque é vexatório admitir sua existência. Mulheres aprendem a naturalizar o medo.
Ao afastar o medo da consciência, ele se manifesta de forma agravada. Violência, intolerância, fanatismo, necessidade de controle, preconceito e autoritarismo são tentativas de administrar medos que não podem ser reconhecidos. Homens com aversão ao medo reagem de modo agressivo e irracional ao menor sentimento de insegurança. A percepção de uma ameaça mínima ou de um perigo inexistente produz respostas patológicas desproporcionais.
O encontro de homens que negam emoções normais com mulheres que normalizam situações anormais é a combinação perfeita para o desastre. De tanto pavor da normalidade, homens vivem em constante estado de alerta e se tornam violentos. De tanto normalizar o pavor, mulheres não reconhecem sinais de alerta e subestimam o perigo.
Mulheres treinadas para enfrentar ameaças consideram-se aptas a controlar um trem desgovernado. A fé cega faz com que acreditem possuir dons supremos para expulsar demônios criados pelo machismo - uma batalha inglória por ideais irreais de família e medo do julgamento.
Quando o mundo desaba à sua volta, em vez de fugirem e se protegerem, elas tentam controlar o incêndio e salvar o incendiário. Na concepção de edificadoras da família, não existe alternativa. Se se evadem, são vis e destruidoras de lares. Se permanecem, não têm vergonha na cara e gostam de apanhar.
Como partir se foram treinadas para aceitar? Fugir para onde, sem dinheiro e autonomia? Fugir de quem, se os agressores as perseguem? Onde buscar apoio, se a família, a religião e a sociedade as condenam? Como aceitar a separação se foram treinados para manter o controle? Como experimentar a vulnerabilidade e o sofrimento se aprenderam a negá-los e a parecer fortes?
Reconhecer e rejeitar condicionamentos sociais maléficos nunca foi tarefa para amadores. Sem estratégias de enfrentamento, a morte por suicídio ou homicídio aparece como solução. O desfecho trágico é resultado de uma cultura errática que prega conceitos torpes e relações assimétricas como ideal de normalidade.
Enquanto prevalecer a cultura da negação das emoções masculinas e a tolerância ao abuso como virtude moral feminina, homens e mulheres viverão e morrerão negando e negligenciando suas angústias, sem jamais experimentar o amor e o respeito, pilares fundamentais para a existência de famílias saudáveis. As sociedades não se tornam mais seguras, ensinando a esconder o medo, mas quando aprendem a reconhecê-lo e regulá-lo no coletivo.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras