O limite entre amor e subserviência
O amor constrói junto, preserva a individualidade, a dignidade e exige reciprocidade. Amor envolve respeito

Na nossa cultura, ainda existem comunidades que ensinam, especialmente às mulheres, a suportar o sofrimento como prova de amor, lealdade e, pasmem, sabedoria. A romantização do absurdo transforma a tolerância a abusos em virtude moral. A permanência em relações abusivas é glorificada, e o autorrespeito é visto como egoísmo. O produto dessa doutrinação são pessoas submissas, movidas pelo senso de pertencimento, medo da rejeição e incapazes de dizer “basta!”.
A subserviência estabelece dinâmicas em que decisões e emoções giram em torno do outro. Uma das partes abdica da própria independência financeira, rede de apoio social e capacidade de discernir sobre os próprios desejos e, ainda, desenvolve a incrível habilidade de adaptar-se a diferentes formas de violência.
Tudo é muito bem ensinado para confundir empatia com anulação de si, tolerância a abusos com compreensão do outro, migalhas afetivas, controle, posse, ciúme, dependência, medo de perder, mimos materiais e promessas de mudança com expressões de amor. E isso costuma funcionar muito bem para a manutenção de vínculos patológicos, em nome de Deus e da família.
A crença de que quem ama suporta tudo é a estrutura da falência da autonomia e do fortalecimento do caos relacional. Manipulação, chantagem, vitimização, inversão de responsabilidade e culpabilização do outro geram confusão psicológica e dificultam o rompimento. Apoiar não significa assumir o controle da vida alheia. A ideia de que alguém precisa salvar, resgatar ou impedir, permanentemente, a queda do outro é salvacionismo. Objetificar-se para servir ao outro tem mais relação com culpa e dependência emocional do que com amor.
O amor constrói junto, preserva a individualidade, a dignidade e exige reciprocidade. Amor envolve respeito. É patética e perigosa a romantização da persistência em relações destrutivas, especialmente quando se trata de mulheres em posição de cuidado, cuja vida se transforma em um eterno conflito entre a percepção do adoecimento e a cobrança externa para aparentar lealdade, família preservada e felicidade.
Suportar abusos não é virtude. Limites são instrumentos de proteção. É preciso interromper resgates e encobrimentos, parar de justificar agressões, não assumir consequências pelos atos do outro, evitar mentiras protetivas, reduzir a hipervigilância e abandonar tentativas compulsivas de controle.
Estabelecer limites pode gerar ansiedade intensa. Persistir faz parte da reconstrução psicológica, bem como recuperar amizades, interesses, trabalho, espiritualidade saudável, projetos pessoais e rede de apoio para reduzir a dependência emocional e ampliar a percepção da realidade. Psicoterapia e grupos de apoio são fundamentais para restabelecer critérios internos de proteção e discernimento.
A solução não depende de mera decisão racional. Pessoas submetidas, por longos períodos, à manipulação e violência psicológica apresentam alterações importantes na autopercepção. A vítima, muitas vezes, compreende que está emocionalmente destruída, mas permanece aprisionada por medo, culpa, dependência financeira ou afetiva, condicionamento familiar, desgaste crônico e esperança de mudança do outro.
O desafio terapêutico é ajudar a pessoa a reconhecer o abuso e recuperar a autorização interna para proteger a própria integridade, sem se sentir egoísta ou culpada. A transformação envolve reconstrução cognitiva, emocional, comportamental e identitária.
A questão se desloca de “Como posso salvar essa relação? ” para “O que me leva a aceitar aquilo que me destrói?”.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.