O lado de fora da Copa do Mundo
A Copa pode simbolizar o contraste entre o investimento bilionário e as desigualdades

A Copa do Mundo representa um dos maiores símbolos de união entre os povos. Durante esse período, fronteiras parecem desaparecer, idiomas se misturam e milhões de pessoas compartilham a emoção de um espetáculo. No entanto, se deslocarmos o olhar do belo gramado para ver o que acontece ao redor do mundo, a Copa não é tão bonita assim. Vamos à realidade: enquanto o espetáculo Copa do Mundo celebra a conquista de um troféu, uma voz crítica pergunta quem financiou aquela conquista, quem trabalhou para torná-la possível e quais vozes foram silenciadas para que a festa acontecesse.
A grandiosidade dos estádios, a força das campanhas publicitárias e o discurso da identidade nacional produzem uma narrativa capaz de mobilizar sentimentos coletivos. Toda Copa vende a promessa de um mundo unido; algumas deixam, como herança, comunidades removidas, ou seja, pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas para abrir espaço para obras da Copa, trabalhadores explorados e contas públicas difíceis de explicar.
Então, a pergunta não cala: onde estão os rostos e as identidades daqueles que sequer aparecem incluídos nos projetos grandiosos investidos para celebrar um esporte que, aparentemente popular, não é para todos?
Carolina Maria de Jesus, escritora brasileira da literatura marginal, ao registrar o cotidiano da fome e da exclusão, revelou que o país oficial frequentemente convive com outro país, marcado pela ausência de direitos básicos. Ou seja, a Copa pode simbolizar o contraste entre o investimento bilionário destinado ao espetáculo e a permanência de problemas históricos relacionados à saúde, à educação, ao transporte e à moradia, o que naturaliza essas desigualdades.
Ao me apoiar na literatura, percebo sua fundamental diferença em relação ao discurso midiático: ela resiste ao esquecimento. Quando o campeonato termina, os gols entram para a memória esportiva, mas as consequências costumam desaparecer das manchetes. A literatura, por sua vez, preserva aquilo que o espetáculo apaga, registrando as experiências individuais e as memórias coletivas para que elas não sejam soterradas pelo entusiasmo momentâneo.
Assim, a literatura mostra a Copa do Mundo para além do entretenimento, ao permanecer em campo, recolhendo os escombros que as câmeras insistem em não mostrar. Ao problematizar relações de poder, desigualdades sociais e violações de direitos humanos, ela amplia o significado do evento e convida o leitor a exercer uma postura crítica diante das narrativas dominantes. Afinal, se o futebol emociona por aquilo que acontece dentro das quatro linhas, é a literatura que frequentemente revela tudo o que permanece do lado de fora delas.
Simone Cristina Succi
Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.