PAINEL DE IDEIAS

O Irã defende-se

A guerra de agressão não é um produto isolado ou aleatório das ações criminosas dos tresloucados governos Trump e Netanyahu, as quais representam paroxismos da barbárie, da crueldade e da desumanidade

por Durval de Noronha Goyos Jr.
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Durval de Noronha Goyos Jr. (Durval de Noronha Goyos Jr.)
Galeria
Durval de Noronha Goyos Jr. (Durval de Noronha Goyos Jr.)
Ouvir matéria

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito iniciado em 1914 entre as potências imperialistas do início do século 20, contrapondo de um lado a Inglaterra, a França e a Itália em oposição à Alemanha, a Áustria, a Rússia e a Turquia. Posteriormente, os EUA ingressaram no confronto ao lado dos ingleses e franceses, estes motivados por conquistas adicionais visando o domínio das fontes de petróleo, combustível que passara a ser utilizado pelas marinhas de guerra. Prevaleceu, em 1918, a força das armas das potências ocidentais, com a assinatura do Tratado de Versalles de 1919.

O balanço humanitário do conflito foi dramático, com cerca de 22 milhões de mortos e 18 milhões de feridos. Politicamente, o desastre trazido por Versalles foi ainda maior, porque permitiu a desalmada dominação do Oriente Médio pelas potências ocidentais e ainda a germinação da Segunda Guerra Mundial, outra grande tragédia, como anteviu John Maynard Keynes, da Universidade de Cambridge. De fato, advertiu o formidável professor, “nem sempre as pessoas aceitam morrer de fome em silêncio...”

Foi então institucionalizado o colonialismo ocidental no Oriente Médio, com o afastamento da Turquia e a exploração do petróleo pelas empresas inglesas, francesas e, subsidiariamente, pelas americanas e italianas. Embora não fizesse parte do Império Otomano, tendo a ele sempre se oposto e mantido sua independência, o Irã caiu sob a sinistra influência inglesa. Os ingleses ali instalaram um governo títere em 1925. Emergiu a resistência nacional iraniana em 1949 e foi nacionalizado o setor petrolífero em 1953. Neste período, os EUA já haviam assumido a maior parte do legado imperialista britânico, mundo afora, assumindo uma hegemonia que persiste até o presente.

Data daquela época a luta pela soberania do Irã contra as forças imperialistas ocidentais agressoras lideradas pelos EUA, num embate que já dura cerca de 100 anos. A partir de 1949, a ação imperialista adotou uma nova feitura com a criação do Estado de Israel, um projeto de colonização sionista por elementos exógenos, grandemente financiado por fontes estadunidenses, de maneira a assegurar uma presença sub-rogada na região. Foi vista como conveniente pelos estrategistas americanos a destruição do substrato soberano das nações do Oriente Médio e a sua substituição por Israel, um Estado cliente, bem como o controle regional, mediante a guerra, o caos, a corrupção, e as violações dos direitos humanos.

A recente guerra, absolutamente ilegal face ao regime do Direito internacional, insere-se dentro do quadro acima descrito. Defende-se heroicamente a nação iraniana. A guerra de agressão não é um produto isolado ou aleatório das ações criminosas dos tresloucados governos Trump e Netanyahu, as quais representam paroxismos da barbárie, da crueldade e da desumanidade. Ao contrário, todas as administrações estadunidenses nos últimos 100 anos procuraram manter o jugo regional, não obstante a frustrada camuflagem da folha de figo da propaganda. Para tanto, os EUA cercaram a região com suas bases militares, as quais compõem parte expressiva das 800 que mantém mundo afora, em 80 países. Note-se que mesmo procedimento está a ser implementado na América do Sul, questão que deve ser objeto de séria consideração pelo governo do Brasil.

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.

Advogado (Brasil, Inglaterra e Portugal). Jurista. Professor de Direito Internacional. Historiador. Foi diplomata. Escritor polígrafo.. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras