O exemplo dos ‘Quartieri’ de Nápoles
No Brasil, o debate sobre a classificação de facções como organizações terroristas naufragou no pântano das disputas ideológicas

Na saída do porto de Nápoles, o taxista Agostinho insistiu em nos levar ao Bairro Espanhol. “Vocês comerão a autêntica pizza napolitana”. Fanático por futebol, devoto de Maradona, ele queria mostrar com orgulho o lugar onde mora. Era um testemunho histórico. Hoje, os “Quartieri Spagnoli” estão cheios de cafés charmosos e lojinhas. Mas Agostinho cresceu ali quando o labirinto de vielas era o bunker da Camorra, a Máfia Napolitana. Na infância, os tiroteios eram frequentes à luz do dia. Nem sempre conseguia voltar pra casa. Nápoles era um território fraturado, onde o Estado italiano batia em retirada diante do poder dos clãs mafiosos. A transformação que Agostinho testemunhou não foi uma trégua pacífica. A Itália sufocou a Camorra, a Cosa Nostra e a 'Ndrangheta ao perceber que o crime organizado transnacional não poderia ser tratado com as ferramentas da delinquência comum. O país adotou táticas e estratégias antiterroristas. O ponto de virada foi a asfixia financeira, o célebre método de “seguir o dinheiro”, mais um isolamento penitenciário severíssimo e uma agressiva cooperação internacional. Ao tratar os mafiosos sob a ótica da segurança nacional e do terror, a Itália desmantelou impérios que pareciam eternos. Sua soberania foi resgatada também nos Quartieri.
No Brasil, o debate sobre a classificação de facções como organizações terroristas naufragou no pântano das disputas ideológicas. O que na Itália foi tratado como pragmatismo de Estado, aqui se transformou em guerra de narrativas. Enquanto o debate se perde em vaidades acadêmicas e dogmas partidários, o crime organizado avança, colonizando regiões e infiltrando-se nas instituições. O país precisa aproveitar a oportunidade histórica para rever sua legislação antiterrorismo, hoje quase inócua para os desafios modernos.
A grande ironia nacional reside nas prioridades de nossa geopolítica de botequim. Há uma parcela considerável da intelectualidade e da classe política preocupada em criticar o “malvado” imperialismo norte-americano. No entanto, fecham os olhos para o verdadeiro e devastador ataque à soberania nacional que ocorre dentro de nossas fronteiras: a expansão territorial das facções. Mais do que se preocupar com fantasmas externos, precisamos olhar para o forte crescimento da criminalidade organizada. Não basta que governantes subam no palanque para bradar discursos ufanistas em defesa da “soberania”. A soberania do Estado só é real quando se traduz em presença, lei e ordem para todos os cidadãos, em todos os territórios.
Seja sob o rótulo de máfia, facção ou terrorismo, o fato é que o poder público não pode tolerar enclaves ditatoriais dentro de suas grandes metrópoles ou na vastidão de suas fronteiras. O orgulho de Agostinho, nos convidando a conhecer o lugar onde cresceu, é a prova de que o retrocesso do crime é possível. Resta saber se o Brasil terá a coragem de trocar a retórica pela estratégia, garantindo que o direito de ir e vir de seus cidadãos não dependa da autorização de um fuzil.
SÉRGIO CLEMENTINO
Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras