O esporte como legado social
O desafio para recuperar o protagonismo na promoção do esporte passa pelos professores

Depois de mais de trinta anos, me desligo definitivamente da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer – SMEL de Rio Preto, com a alma leve do dever cumprido.
Foi um longo período de muitas conquistas, descobertas e aprendizados até compreender o papel da máquina pública e sua relação com as políticas para o esporte, mas também tempos de grandes conflitos profissionais diante do uso político-ideológico do esporte e da efetiva atuação profissional permeada pela política partidária.
O esporte é o que se faz dele, lembra Pierre Parlebas em suas reflexões a respeito da apropriação social do esporte. Seus efeitos dependem da direção que se dá a ele a partir da intervenção de técnicos e professores. Assim, o mesmo poder atribuído ao esporte para a emancipação do sujeito na construção da sua cidadania também pode ser usado para sua submissão, manipulando sua consciência em projetos eleitoreiros.
A utilização do esporte como materialização de um discurso ideológico, de viés assistencialista, rompe com os propósitos dos ideais olímpicos, da educação pelo movimento e da libertação do sujeito.
Equilibrar a balança ética e moral entre estes dois extremos sempre foi um desafio enfrentado com estudo, pesquisa, planejamento e, essencialmente, com o apoio dos colegas que dividiam comigo a missão de coordenar as atividades do departamento de esportes.
O bem-estar, a qualidade de vida, a saúde e a formação integral de um cidadão consciente e mais humanista são objetivos defendidos para beneficiar crianças e jovens nas escolas, praças e centros esportivos sob a gestão da SMEL.
Esse ideal teve início em programas como o Criança Esporte, Segundo Tempo e outros, que culminaram em eventos da magnitude das Infantíades e Riopretíades, competições esportivas municipais que foram se definhando com o tempo e a rápida transformação da sociedade.
Mudanças que abriram espaço para outras instituições, quase sempre com dinheiro público, ocuparem o lugar destinado à SMEL nas políticas esportivas. Fenômeno que relega à Secretaria um papel secundário na oferta das práticas corporais como um dos pilares para a formação humana.
O desafio para recuperar o protagonismo na difusão e promoção do esporte passa pela valorização dos professores, técnicos e atletas, modernização da infraestrutura e serviço de qualidade nas dez regiões da cidade. Desafios que deverão ser enfrentados com competência e profissionalismo na administração pública e gestão futura.
A expectativa é que a SMEL possa manter seu compromisso com as verdadeiras políticas públicas para o esporte, incentivando a prática esportiva com pedagogia inclusiva, autonomia, diálogo e, essencialmente, com responsabilidade.
Altair Moioli
Mestre e doutor em Educação Física pela UNESP Rio Claro. Aposentado pela RiopretoPrev. Professor da UNIP Campus JK.