O escândalo que virou paisagem
Democracias maduras convivem com crises e investigações. O problema começa quando o acúmulo se torna sufocante a ponto de o absurdo virar parte ordinária da paisagem

Era uma casa muito engraçada. Não tinha teto, não tinha nada — escreveu Vinicius de Moraes em um daqueles poemas que enganam à primeira leitura. Porque algumas casas existem exatamente assim: sustentadas mais pelo improviso do que pelos alicerces, mais pela aparência de normalidade do que por qualquer consistência que a justifique.
São José do Rio Preto, às vezes, dá sinais preocupantes de que caminha nessa direção.
Não porque lhe faltem pujança econômica, universidades ou peso regional. O que está em discussão é outra coisa: a transformação gradual do escândalo em rotina administrativa, como se o constrangimento público tivesse perdido a capacidade de produzir qualquer efeito moral duradouro.
Enquanto a população convive com o desgaste cotidiano dos serviços públicos e uma sensação persistente de insegurança institucional, a política local parece presa numa sequência quase ininterrupta de episódios que, em outras circunstâncias, seriam excepcionais. O prefeito enfrenta questionamentos ligados a uma negociação imobiliária sob apuração. O vice-prefeito é alvo de investigação por acusações de racismo. Na saúde pública, uma contratação milionária sem licitação — exames de imagem em estruturas móveis terceirizadas — terminou com a saída do secretário da pasta.
Democracias maduras convivem com crises e investigações. O problema começa quando o acúmulo se torna sufocante a ponto de o absurdo virar parte ordinária da paisagem — algo que se nota ao fundo, como ruído, sem que ninguém mais se vire para olhar.
Hannah Arendt observava que a deterioração da esfera pública também acontece quando a capacidade coletiva de distinguir o aceitável do intolerável vai sendo corroída. Quando tudo parece escandaloso o tempo inteiro, o próprio escândalo perde força. A indignação cede lugar ao cansaço — e o cansaço social é uma das formas mais silenciosas de erosão democrática, porque não produz nenhum barulho ao acontecer.
Cidadãos exaustos param de acreditar na possibilidade de correção. Passam a administrar frustrações como quem administra o tempo ruim: esperando que passe.
Byung-Chul Han descreve uma sociedade marcada pela saturação emocional que o excesso de estímulos produz. No campo político, o efeito é parecido: o cidadão já não consegue reagir com precisão porque vive submetido a um fluxo contínuo de crises e constrangimentos que se acumulam sem pausa. Pouco a pouco, a capacidade de reação vai sendo anestesiada — não por decreto, mas por exaustão.
Rio Preto não precisaria ser conhecida por esse tipo de desgaste. Uma cidade economicamente robusta e culturalmente sofisticada não deveria naturalizar a ideia de que sua vida pública será atravessada, de forma estrutural, por episódios constrangedores.
Instituições não desmoronam apenas por falta de recursos. Às vezes começam a ruir quando desaparece algo mais difícil de repor: o senso básico de que responsabilidade pública tem consequências.
Era uma vez uma casa muito engraçada.
O problema verdadeiro talvez seja este: perceber que ela existe — e constatar que começamos, com uma naturalidade que deveria nos assustar, a nos acostumar com ela.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados