Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
PAINEL DE IDEIAS

O Devorador de Pecados

A aceitação de um sistema legal de justiça, ainda que bastante imperfeito, é mais benéfica para a sociedade do que admitir que cada indivíduo imponha, por conta própria, aquilo que entende como justo

por Evandro Pelarin
Publicado há 26 minutosAtualizado há 23 minutos
Evandro Pelarin (Divulgação)
Galeria
Evandro Pelarin (Divulgação)
Ouvir matéria

A Saga do “Devorador de Pecados” (1985/86), de Peter David (Marvel Comics), narra a trajetória de Stan Carter, um policial que se transforma em um assassino em série. Distúrbios psicológicos decorrentes de um experimento malsucedido com drogas. Trauma pelo assassinato de seu parceiro. Carter passa a ouvir seu alter ego justiceiro, o Devorador de Pecados, que despreza o sistema de justiça por suas falhas. Assim, usando uma máscara, mata a capitã Jean DeWolff.

Carter, inadvertidamente designado para investigar o crime, conta ao Homem-Aranha, amigo da capitã, que o Devorador de Pecados reproduz uma lenda do antigo povo Ozark: frutas eram colocadas sobre o peito do falecido e consumidas por alguém marginalizado. Ao ingeri-las, esse indivíduo absorveria simbolicamente os pecados do morto, permitindo que sua alma seguisse purificada. Ou seja, o “outro eu” de Carter se autoempodera e se autorreconhece como “purificador” da sociedade e prossegue: mata o juiz Horace Rosenthal e o padre Bernard Finn.

Outro herói, Demolidor, persona secreta do advogado Matt Murdock, amigo do juiz, une forças com o Aranha e, juntos, passam a investigar os casos até descobrirem a identidade do serial killer, que afirma ter matado o juiz porque ele “mimava” criminosos, o padre porque absolvia pecados e a policial simplesmente porque quis. Isso demonstra que um justiceiro sempre acaba perdendo o motivo que supostamente justificaria seus crimes e se torna nada mais do que aquilo que dizia combater: um criminoso.

O Aranha, tomado pela raiva e pelo desejo de vingança, agride o Devorador de Pecados com extrema violência, a ponto de quase matá-lo. O Demolidor, refletindo o senso de legalidade do advogado Murdock, intervém para impedir a execução do assassino. Os dois acabam entrando em um confronto brutal e fratricida. Durante a luta, o Demolidor tenta convencer o Aranha de que, ainda que ambos estivessem enfurecidos pelas mortes de seus amigos e por mais defeituoso que seja o sistema de justiça, é a ele que o criminoso deve ser entregue. E por mais cruel que seja o assassino, ao matá-lo os heróis rebaixariam seus próprios valores ao nível dos dele, tornando-se, eles próprios, novos “Devoradores de Pecados”.

O Demolidor consegue salvar Carter e entregá-lo à prisão. A população tenta linchá-lo, momento em que o Aranha, tentando retomar a razão do Direito, interfere para que Carter possa ser julgado e sentenciado. Contudo, em razão de seu histórico de transtornos mentais, uma junta psiquiátrica recomenda à Justiça sua soltura, sobretudo porque Carter se encontra seriamente debilitado em decorrência da surra recebida do Aranha. Este, por sua vez, ao vê-lo naquela condição, passa a enfrentar uma profunda crise de consciência, buscando recuperar de vez seu senso de justiça.

Carter chega a defender o Aranha de uma multidão enfurecida, indicando um conflito interno e um possível arrependimento. Contudo, incapaz de lidar com o próprio perdão, retorna à identidade do Devorador de Pecados pela última vez e ameaça uma criança, o que leva a polícia a reagir com força letal. Gravemente ferido, afirma, antes de morrer, que conseguiu destruir o Devorador de Pecados dentro de si.

A saga demonstra que a aceitação de um sistema legal de justiça, ainda que bastante imperfeito, é mais benéfica para a sociedade do que admitir que cada indivíduo imponha, por conta própria, aquilo que entende como justo. O destino desses justiceiros, ao final, é serem consumidos pela própria lógica da violência que adotam: autodevorarem-se.

P.S.: Este texto surgiu por indicação de meu filho, Davi Dias Pelarin, a quem o dedico, por me apresentar um lado da cultura dos quadrinhos até então desconhecido por mim.

EVANDRO PELARIN

Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras