ARTIGO

O cineasta do chapéu de palha

Falar de Mazzaropi não é apenas falar de cinema; é falar de espelho

por Jocelino Soares
Publicado há 13 minutos
Jocelino Soares (Jocelino Soares)
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O mês de abril que se aproxima, no interior, tem um cheiro diferente. É cheiro de poeira que levanta no estradão, misturado ao aroma do café coado no pano e ao som da seriema que avisa que o tempo está mudando. Mas, para a cultura brasileira, abril é, acima de tudo, o mês em que o riso pediu licença para entrar na sala de visitas do Brasil. Foi num 9 de abril que nasceu Amácio Mazzaropi, o homem que transformou o "caipira" de figura folclórica em herói nacional.

Falar de Mazzaropi não é apenas falar de cinema; é falar de espelho. Se a elite da época olhava para o caipira com o desdém de quem vê um atraso, Amácio olhava com o carinho de quem via a própria essência. Ele não interpretava o Jeca; ele era a resistência de um povo que, mesmo calçado na simplicidade de uma botina velha, não abaixava a cabeça para os "doutores" da cidade grande.

O preto e branco dos primeiros filmes da PAM Filmes não escondia o colorido da sua alma. Ele entendia que o caipira brasileiro tinha uma paleta própria: o marrom da terra, o azul do céu de agosto e o branco da cal das casinhas pequenas.

Muitos críticos, de gabinete e gravata, tentaram diminuir sua obra, chamando-a de "ingênua". Mal sabiam eles que a ingenuidade do Jeca era sua maior arma. Mazzaropi foi o maior produtor independente que este país já viu. Enquanto os grandes estúdios quebravam, ele erguia impérios em Taubaté, financiando seus sonhos com o dinheiro suado do povo que lotava os cinemas de rua. Ele era o "blockbuster" do interior, o herói que vencia a injustiça com uma piada na ponta da língua e uma esperteza que nenhum diploma conseguia ensinar.

Diferente do Jeca Tatu de Monteiro Lobato — aquele coitado, doente e desolado —, o Jeca de Mazzaropi era vibrante. Ele tinha família, tinha ética e, principalmente, tinha voz. Quando ele entrava em cena com aquela calça-pula-brejo e o paletó sempre um número maior, o Brasil inteiro se sentia representado. Ele não precisava de efeitos especiais; o seu efeito especial era o tempo da comédia, o silêncio antes do "causo", o jeito de coçar a cabeça que dizia mais que mil discursos políticos.

Neste abril, quando celebramos seu nascimento, não celebramos apenas um ator que se foi. Celebramos uma filosofia de vida. Mazzaropi nos ensinou que a simplicidade não é ausência de sofisticação, mas o auge dela. Ele provou que o regionalismo, quando feito com verdade, torna-se universal.

Jocelino Soares
Artista plástico, pós-graduado Arte-educação, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.