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ARTIGO

O chinelo virado e a mãe sagrada

Mãe, eu ainda desviraria mil chinelos só pra te manter viva mais um dia

por ​​​​​​Gilson Ribeiro .
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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No altar da vida, não há figura mais sagrada que a mãe. Ela é o templo onde aprendemos a amar, o milagre que se repete todos os dias, e o gesto de desvirar o chinelo era, na verdade, uma oração em silêncio para que o milagre nunca acabasse.

Contava-se, entre murmúrios e olhares sérios, uma lenda antiga, de origem incerta — talvez trazida pelos portugueses, quem sabe soprada da sabedoria africana, isso não importa, o que importa mesmo é que ela nos ensinava — e ainda ensina — sobre cuidado, zelo e respeito.

Nos tempos de outrora, a vida era dura, tudo era escasso, o alimento, o tempo, a informação, era preciso cuidar bem do pouco que se tinha, e as lições, ah... as lições vinham dos mais velhos, passadas à boca miúda, no canto da sala ou ao redor do fogão, em forma de advertências vestidas de temor. Uma delas dizia: “Não deixe o chinelo virado com a sola pra cima, senão sua mãe morre.”

E eu, menino, morria de medo disso, bastava ver um par de chinelos fora de posição para correr e desvirá-los, como quem desfaz um feitiço, como quem salva uma vida.

Ingênuo? Talvez. Bobo? Nunca. Era amor disfarçado de superstição.

Hoje entendo, não era sobre crendice, era sobre reverência, porque dentro de uma casa que se preza, a figura mais sagrada sempre foi — e sempre será — a da mãe. Ela, que passava o dia inteiro limpando, dobrando, varrendo, cuidando, e a nós, pequenos, bastava chegar da rua, tirar o chinelo de qualquer jeito, jogá-lo num canto e correr para a pia ou para a mesa. Mal sabíamos que o simples gesto de deixar tudo em ordem era uma forma de agradecer por tanto que ela fazia.

Hoje, crescido, vejo que aquela lenda era uma ode ao serviço materno, era um lembrete ao respeito de quem transformava um lar em abrigo, quem dava ordem ao caos, quem cuidava até do nosso caminhar.

Para quem já não tem mais a sua por perto, a mãe virou saudade. Saudade da casa que já não tem o mesmo cheiro, o mesmo som, o mesmo calor, e o chinelo, ah... o chinelo, esse, mesmo que esteja virado, e mesmo que já não haja mais necessidade de desvirar, fazemos até hoje.

Ah, se pudéssemos ser heróis novamente; se pudéssemos, ao menos por um dia, devolver ao mundo a esperança com o simples gesto de desvirar um chinelo e vê-la sorrir na porta da cozinha; se pudéssemos, por um instante só, correr com os pés descalços e ouvir sua voz dizendo: — "Vira esse chinelo, menino, quer matar a sua mãe?"

Mas ela não está mais, e a gente fica aqui, com essa vontade de fazer o impossível, de salvar o que já não pode ser salvo, de desvirar a ausência, e refazer o tempo.

Então eu peço, como quem ora baixinho, com o coração na mão, Mãe, se ainda houver um canto no céu onde se vê os gestos da terra, olha pra mim, e vê que eu ainda desviraria mil chinelos só pra te manter viva mais um dia.

Porque saudade, Mãe…, saudade é um chinelo que não se desvira mais.

​​​​​​Gilson Ribeiro

Contador, cronista, poeta e membro da Academia Maçônica de Letras e Cultura do Noroeste Paulista.