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ARTIGO

O cheiro da sopa

Esse cheiro anunciava muito mais do que o almoço ou o jantar

por Henrique Fernandes
Publicado em 21/07/2026 às 20:06Atualizado em 21/07/2026 às 20:11
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Dias atrás estava no Proença, aqui da Anísio Haddad, quando encontrei o doutor Bolívar, meu vizinho de muitos anos no Vivendas. "Jornalista, você não está escrevendo mais no Diário? O que aconteceu? Precisamos falar do que acontece na cidade."

Fiquei pensativo. Fui vizinho do doutor Bolívar por muitos anos. Foi médico do município durante muito tempo, um cara inteligente, de bom papo, daqueles que ainda assinavam dois jornais impressos e faziam questão de acompanhar o que acontecia ao redor. Depois que se mudou, acabamos perdendo o contato. Nos corredores do supermercado, ele me cobrou. Disse que eu precisava voltar a escrever e a falar sobre a cidade. Falou até que estava faltando alguém para dizer algumas verdades. Olha só. Mas quais verdades?

Curiosamente, naquela mesma semana, dois amigos antigos, Pedro e João, tocaram no mesmo assunto. Disseram que era preciso falar mais. Ou, talvez, se importar mais. Tirei sarro deles. Conversamos sobre como, muitas vezes, as pessoas preferem o silêncio. Não por falta de opinião, mas porque hoje qualquer palavra pode virar motivo para julgamento, ataque ou cancelamento. No fim das contas, muita gente escolhe não dizer nada. É mais fácil.

Confesso que fiquei triste. E, às vezes, ainda fico. Há dias em que o mundo pesa mais do que a gente consegue carregar. Nesses dias também soube que o número de moradores de rua aumentou muito. E que ainda existem famílias passando fome. Mães sem ter o que colocar na mesa para os filhos. Sim. Em Rio Preto. Uma cidade rica, bonita, admirada por tanta gente.

Um amigo me disse que eu precisava parar de levar essas coisas para o coração. Que precisava parar de me revoltar. Adoraria. Mas tem horas em que simplesmente não dá.

Talvez não fosse exatamente isso que o doutor Bolívar esperasse ler. Talvez ele estivesse pensando em política, nos problemas da cidade ou em alguma discussão pública. Mas foram essas notícias que me deixaram sem palavras. E acho que esse também é um jeito de falar sobre o lugar onde vivemos.

Agora são quase sete e meia da noite e estou sentindo um cheiro de sopa. Daquelas de caldo grosso, com sustância. Tem algum vizinho aqui que cozinha muito bem. O cheiro invadiu nosso apartamento.

E, sem perceber, voltei muitos anos no tempo. Lembrei da época em que morava na Maceno. Depois de jogar bola no Palestra, voltava caminhando para casa sentindo o cheiro da comida escapando pelas janelas das casas. Consigo sentir na boca os pedaços de legumes cortadinhos, os macarrões e o sabor. Esse cheiro anunciava muito mais do que o almoço ou o jantar. Anunciava que tinha gente esperando a gente, panela no fogo, conversa, família reunida.

Espero que todo mundo tenha lembranças simples assim. Porque, às vezes, um cheiro de sopa consegue lembrar aquilo que nunca deveria faltar. Uma casa, uma refeição e alguém para dividir a mesa.

Henrique Fernandes

Jornalista e assessor de imprensa.