O chão onde o Brasil se fez inteiro

Quem desembarca no Maranhão percebe logo que a identidade local se desenha em cores fortes e sabores únicos. Há quem brinque que o orgulho maranhense se resume ao sonho cor-de-rosa do Guaraná Jesus ou ao ritmo das matracas do Bumba Meu Boi. Mas, caminhando pelas ruas de pedra de São Luís dá para perceber uma camada mais profunda e antiga moldando esse povo. Para além do folclore, há uma fascinante história esculpida nestes casarões. Uma história que no dia de hoje ganha contornos de celebração oficial.
Dia 28 de julho é feriado estadual. É o que muitos chamam de o “Dia da Independência” no Maranhão. Tecnicamente, a Data Magna festeja a Adesão do Maranhão à Independência do Brasil. Enquanto o grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga ocorreu em 1822, no Maranhão a independência só viria quase um ano depois. No Centro-Sul já se desenhava o novo império, mas aquela província do Norte, isolada do resto do país, com laços comerciais e marítimos muito mais estreitos com Lisboa do que com o Rio de Janeiro, permanecia leal à Coroa Portuguesa. A unidade do mapa do Brasil que hoje conhecemos dependeu diretamente do que se desenrolou naquelas paragens em 1823, culminando no blefe do Almirante Cochrane que venceu os resistentes e finalmente içou a bandeira imperial no Palácio dos Leões.
Escrevo estas linhas enquanto faço o caminho de volta de uma viagem por aquela região: cruzamos a imensidão maranhense, além dos ventos do litoral do Piauí e as dunas do Ceará. Na memória da estrada, o monumento erguido no meio do caminho entre Teresina e o litoral piauiense, na cidade de Campo Maior. Ali travou-se a Batalha do Jenipapo em março de 1823. Foi um dos confrontos mais sangrentos e esquecidos da nossa história. De um lado, o exército regular português, bem armado e sob o comando de João José da Cunha Fidié. Do outro, lavradores, vaqueiros e sertanejos piauienses e maranhenses armados apenas com foices, facões e a coragem nua de quem exigia liberdade. Aqueles homens perderam a batalha imediata e tombaram aos montes, mas o heroísmo do Jenipapo minou as forças das tropas coloniais, abrindo caminho para o cerco final às guarnições portuguesas. O solo do sertão foi o lugar onde o sangue brasileiro comprou a integridade do território nacional. Não é difícil compreender o orgulho dos maranhenses pela data de hoje. Ela não celebra apenas uma assinatura em um pedaço de papel colonial, mas a confirmação de que o Norte não se curvou facilmente, exigindo ser parte ativa da construção do país. Ali, a nossa independência foi conquistada a duras penas, longe dos palácios fluminenses.
Viajar por esses estados é um exercício de redescoberta do próprio Brasil. Quando os tambores do Boi silenciarem e o sol se puser sobre o casario de São Luís, os maranhenses fecharão o dia de hoje sabendo que a sua terra não é apenas um cenário de beleza deslumbrante, mas o chão histórico onde o nosso mapa, finalmente, costurou-se por inteiro.
SÉRGIO CLEMENTINO
Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras