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O belo caos do coração de uma mãe

O caos do coração de uma mãe não precisa ser silenciado ou corrigido, mas escutado

por Roberta Grangel
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Na recente cerimônia do Oscar, uma fala atravessou a tela e encontrou algo profundamente íntimo em muitas mulheres. Ao receber o prêmio de melhor atriz, Jessie Buckley dedicou sua conquista às mães e nomeou, com rara precisão, uma experiência difícil de traduzir: o “belo caos do coração de uma mãe”. Há algo nessa expressão que ressoa porque é verdadeiro.

A maternidade não é feita apenas de amor, embora o amor esteja presente de forma intensa e, muitas vezes, avassaladora. Ela também é atravessada por cansaço, sobrecarga, ambivalência e, por vezes, uma sensação silenciosa de desencontro consigo mesma. Há dias em que a mulher se reconhece na mãe que se tornou. Em outros, pergunta-se, em silêncio, onde foi parar aquela que era antes.

Talvez uma das dimensões mais invisíveis dessa experiência seja justamente essa: amar profundamente e, ainda assim, sentir falta de si, sem saber se há permissão para dizer isso em voz alta.

Na clínica psicológica, essa realidade aparece com frequência. Mulheres que se cobram por não sustentarem um ideal de plenitude constante. Que acreditam que, por amarem seus filhos, não deveriam se sentir exaustas, irritadas ou sobrecarregadas. Como se o amor, por si só, anulasse os limites do corpo e da subjetividade. Mas não anula. E é justamente nesse ponto que o chamado “caos” se revela não como falha, mas como expressão legítima da condição humana. Sentir-se dividida, ambivalente, por vezes esgotada, não diminui o amor materno, mas apenas o torna mais real.

A Logoterapia, desenvolvida por Viktor Frankl, nos lembra que o ser humano não é definido apenas pelas circunstâncias que o atravessam, mas pela maneira como se posiciona diante delas. Mesmo em meio às tensões e às perdas, permanece aberta a possibilidade de construção de sentido — não apesar da dor, mas também através dela.

A maternidade é, muitas vezes, um desses territórios de transformação. Um espaço em que antigas versões de si deixam de caber, enquanto novas ainda estão em processo de construção. Um tempo de passagem, marcado por deslocamentos internos que nem sempre encontram linguagem imediata.

Talvez o caos do coração de uma mãe não precise ser silenciado ou corrigido, mas escutado. Porque ele fala de amor, mas também de responsabilidade, renúncia, desejo, culpa, escolhas e limites. Fala de uma subjetividade que não desaparece ao se tornar mãe, mas que precisa, constantemente, se reorganizar.

O coração de uma mãe pode, sim, ser caótico. Mas não se trata de um caos vazio. É um caos habitado: de histórias, de vínculos, de contradições — e, sobretudo, de sentido.

Roberta Grangel

Psicóloga clínica. Mestre em Psicologia pela Unesp-Assis.