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ARTIGO

O anel de Giges na política rio-pretense

Quando uma população perde o interesse pela política, o anel de Giges circula livremente

por Simone Cristina Succi
Publicado há 3 horasAtualizado há 1 hora
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Na obra A República, de Platão, há um mito que conta a história de um homem chamado Giges, o qual encontra um anel capaz de torná-lo invisível. Ao perceber que não poderia ser visto, ele se aproveita disso e abandona qualquer limite moral: seduz a rainha, mata o rei e toma o poder.

Essa narrativa atravessa séculos porque não fala apenas de magia; fala da velha tentação humana diante da ausência de controle, de fiscalização e de consequência, ou de punição. Assim, surge a pergunta: as pessoas são honestas por convicção própria ou porque sabem que estão sendo observadas?

A política rio-pretense, infelizmente, nos últimos meses, passou a conviver com um ambiente de crescente tensão política, marcado por denúncias, disputas, investigação, afastamentos e uma sensação de desgaste da confiança pública. Independentemente do desfecho jurídico ou administrativo de cada caso - que deveria respeitar, sempre, o processo legal -, há algo que merece reflexão: o poder, quando se sente protegido, frequentemente passa a agir como se estivesse invisível.

E é nesse ponto que o mito de Giges se torna perigosamente contemporâneo.

A sensação de invisibilidade na política costuma nascer devagar: primeiro, pequenos excessos; depois, críticas passam a ser tratadas como perseguição; por fim, instala-se a convicção silenciosa de que o poder basta para legitimar qualquer atitude corrupta.

Talvez por isso o momento atual exija menos emoção partidária e mais vigilância cidadã. Democracias não se sustentam apenas no voto. Sustentam-se também na capacidade da sociedade de acompanhar, questionar e fiscalizar aqueles que ocupam cargos públicos.

Quando uma população perde o interesse pela política, o anel de Giges começa a circular livremente. E há algo ainda mais delicado: a corrupção não começa necessariamente em grandes escândalos; ela nasce, quase sempre, em pequenas permissões morais, na naturalização do inadequado, na crença de que determinadas regras existem apenas para os outros.

O problema nunca é apenas jurídico. É ético! Isso porque cidades também possuem memória moral. E aquilo que uma sociedade tolera repetidamente acaba, pouco a pouco, definindo sua identidade pública.

No mito grego, o anel concedia invisibilidade ao portador. Na vida real, felizmente, ainda existem imprensa, instituições, servidores públicos sérios e cidadãos atentos. Talvez sejam eles as últimas barreiras contra a antiga ilusão de que o poder pode agir sem ser visto.

Penso, então, que o maior dever do cidadão rio-pretense seja impedir que o anel de Giges circule livremente pelos corredores da Prefeitura, porque todo poder que acredita não estar sendo observado começa, cedo ou tarde, a se sentir autorizado a ultrapassar limites.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.