O agro que não para de crescer
Com produtividade nove vezes acima da média nacional, o setor mostra que inovação e ciência são o caminho para manter a liderança num mundo mais competitivo

O agronegócio brasileiro não para de surpreender, apesar dos desafios. Enquanto o país cresceu 2,3% em 2025, segundo o IBGE, a agropecuária avançou 11,7%, resultado muito superior ao dos serviços (1,8%) e da indústria (1,4%). Os recordes de produção dos grãos são a parte visível desse desempenho, mas há algo mais profundo por trás dos números: ganhos consistentes de produtividade que vêm se acumulando ao longo dos anos.
O primeiro aspecto é como o setor avançou em produtividade da mão de obra. Segundo o Observatório de Produtividade, do FGV Ibre, em 2025, a produtividade do agronegócio por trabalhador subiu 13,2%, enquanto a da indústria recuou 0,3%. Entre 1981 e 2023, a agropecuária registrou avanço de 6% ao ano por hora trabalhada, em contraste com a média de apenas 0,5% da economia brasileira e a queda de 0,3% da indústria.
Para que esse ritmo se sustente, no entanto, é preciso investir cada vez mais na qualificação de quem opera no campo. Máquinas agrícolas equipadas com sistemas de precisão e coleta de dados e drones já fazem parte da rotina das lavouras, mas exigem profissionais capacitados. Instituições como o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, fundado em 1942) e o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, de 1991) fazem a diferença. Ao longo de sua história, as entidades capacitaram mais de 170 milhões de brasileiros. É uma estrutura que precisa ser ainda mais ampliada e conectada às demandas tecnológicas do setor.
Aumentar a produtividade é necessário para o Brasil seguir competitivo no cenário internacional. O enfraquecimento do multilateralismo e a fragmentação das cadeias globais tornaram a competição muito mais acirrada. Quem produz mais com menos custo, e com rastreabilidade ambiental, ganha mercado. O Brasil tem essa vantagem, mas não pode desperdiçá-la. A resposta precisa vir de investimentos consistentes em pesquisa, desenvolvimento e tecnologia.
Um exemplo veio de Piracicaba em abril. O CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) inaugurou a primeira Unidade de Produção de Sementes Sintéticas de cana-de-açúcar do mundo, com a meta de dobrar a produtividade dos canaviais até 2040. A tecnologia substitui o uso de toletes por sementes padronizadas, com plantio mecanizado, menor consumo de diesel e redução do risco de pragas.
A grande aposta, em todos os segmentos, é na inteligência artificial (IA). Segundo a Embrapa, propriedades que adotaram sistemas de agricultura de precisão com IA economizaram até 30% em fertilizantes e tiveram ganhos de produtividade entre 15% e 20%. Imagine o produtor que acorda e, antes de ir a campo, recebe no celular um diagnóstico da lavoura — áreas com estresse hídrico, risco de praga, melhor janela de pulverização —, processado por algoritmos que cruzam dados de satélite, sensores do solo e histórico da fazenda.
O agro brasileiro prova, ano após ano, que produtividade não é acaso. É resultado de décadas de investimento em pesquisa, adoção de tecnologia e formação de capital humano. O desafio agora é não deixar essa vantagem erodir. Num mundo menos aberto e mais competitivo, quem não inova, perde espaço.
Jacyr Costa Filho
Vice-presidente do Cosag - Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e sócio da consultoria Agroadvice