Novos ventos

Nestas últimas décadas, percebemos inúmeras transformações na economia mundial. O processo de globalização alterou fortemente as estruturas produtivas, novos comportamentos se espalharam para todas as regiões do globo, a globalização reconfigurou as estruturas produtivas internacionais, tudo isso contribuiu imensamente para o surgimento de novos valores, novos comportamentos e uma nova volatilidade.
Desde os anos 1980, a sociedade internacional passou por grandes alterações estruturais, novos valores e novas formas de organização produtiva. A teoria econômica dominante passou a defender mais mercados e menos Estado, onde os ideários econômicos e políticos passaram a divulgar conceitos como privatização, desregulação, abertura econômica, redução do papel do Estado na economia, dentre outras. Ideias ligadas ao pensamento neoliberal, todas estas medidas eram vistas como o instrumento para as nações subdesenvolvidas conseguirem alavancar seu crescimento econômico, com incremento da produtividade do trabalho, melhora nas condições de vida da população e levando estas nações ao tão sonhado desenvolvimento.
Países como o Brasil e a América Latina abraçaram, sem titubear, este novo ideário econômico, motivado e estimulado pelos países desenvolvidos ocidentais. Desta forma, passaram a diminuir o papel do Estado na Economia, iniciaram a venda do patrimônio público nas mais variadas áreas e setores, reduzindo as regras, as fiscalizações e as regulações dos sistemas econômicos, abrindo espaço para os setores privados, onde os mercados passaram a ser os grandes condutores e alavancadores da economia, gerando, como num passe de mágica, mais prosperidade, mais riqueza e bem-estar para a sociedade.
Nos anos 1990, as instituições multilaterais, dependentes das nações desenvolvidas ocidentais, passaram a pressionar os governos nacionais a abrirem suas economias e atraírem grandes conglomerados internacionais. Desta forma, esta abertura trouxe, como efeito colateral, a fragilização dos setores produtivos nacionais, a chamada desindustrialização, que transformou as estruturas produtivas e contribuiu, ativamente, para a perpetuação de um modelo econômico agroexportador baseado em produtos de baixo valor agregado, aumentando a dependência da importação de máquinas, equipamentos e tecnologias externas.
Nos últimos anos, percebemos que este ideário neoliberal vem perdendo espaço na agenda econômica global dos países desenvolvidos, como demonstrou o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), sugerindo que o mundo está entrando em uma nova fase, onde nações como França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Rússia, dentre outras, estão nacionalizando empresas de energia, ferrovias, saneamento básico, telecomunicação, siderurgias. Além disso, muitos governos passaram a controlar recursos minerais estratégicos, como terras raras, lítio, ouro, urânio, níquel, etc., produtos fundamentais para o domínio das cadeias globais de produção.
As alterações do sistema econômico mundial são violentas e exigem, dos setores produtivos, uma integração com governos nacionais. Precisamos construir uma nova governança entre mercado e Estado, deixando de lado as teorias neoliberais ultrapassadas e entreguistas.
As nações que embarcaram cegamente nestas ideias foram penalizadas, perderam espaço no sistema econômico global, foram superadas por outras nações e viram seus poderes locais e regionais se reduzirem e, ao mesmo tempo, foram ultrapassadas por nações asiáticas que se afastaram do neoliberalismo, centrando-se no planejamento, no intervencionismo governamental, nas políticas públicas, atraindo tecnologias, com subsídios estatais e exigências para investidores internacionais. Neste cenário, onde os defensores do pensamento neoliberal estão mudando de ideia e revendo políticas, percebemos que, no Brasil, ainda estamos abraçados a este pensamento e, infelizmente, estamos perpetuando nossa dependência, nosso entreguismo e ainda, acreditamos que somos modernos.
Ary Ramos da Silva Júnior
Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.