NEM SÓ DE ESTRELAS É FEITO O CÉU
A matéria do Diário do último domingo joga luz sobre um fenômeno cada vez mais visível: o movimento silencioso, porém firme, de retorno das pessoas ao espiritual e ao religioso

Há uma célebre frase de Albert Einstein que faz a ponte entre dois mundos que às vezes se olham com desconfiança: “A ciência sem a religião é cega; a religião sem a ciência é manca.” A ciência nos dá as lentes, a precisão do mapa, o desenho exato da engrenagem; a religião nos oferece o vetor, o sopro que diz para onde caminhar e por que vale a pena continuar a jornada. Uma enxerga a estrada, a outra dá o sentido ao passo.
A matéria do Diário da Região do último domingo joga luz sobre um fenômeno cada vez mais visível: o movimento silencioso, porém firme, de retorno das pessoas ao espiritual e ao religioso. Não se trata de uma simples onda de saudosismo, mas de um reencontro necessário. A verdade é que nenhum grupo humano prosperou ao longo da história sem uma dimensão espiritual. Desde os primeiros fogos acesos em cavernas até as grandes civilizações, a busca pelo transcendente sempre foi o cimento invisível que uniu indivíduos em torno de um propósito maior do que a mera sobrevivência biológica.
No entanto, a forma como cada um encara o sagrado é altamente pessoal. Essa relação não se decreta de fora para dentro, depende diretamente do grau de autoconhecimento, da profundidade com que se compreende a condição humana e da própria maturidade diante da vida. Quanto mais o homem se debruça sobre suas fragilidades, mais percebe que o templo mais importante é a sua própria consciência.
Há um velho ditado popular que sintetiza a fraqueza da arrogância humana: “todo ateu existe só até o avião começar a cair”. É no momento da turbulência severa, quando a física parece insuficiente para garantir os próximos cinco minutos, que o orgulho intelectual se dissolve. E a matéria do Diário confirma o que a vida cotidiana já ensina: muitas pessoas estão regressando ao espiritual justamente porque, em algum momento recente da vida, o seu avião pessoal começou a despencar. Seja pelo luto, pela doença, pelo esgotamento mental ou pela perda do chão, a dor tem o estranho hábito de limpar nossa visão do que é supérfluo.
Isso não significa abandonar a razão. Devemos, sim, acreditar na ciência e na religião como duas grandes luzes da experiência humana. Mas é preciso manter um olhar atento sobre seus operadores. Afinal, falhas não pertencem apenas aos altares; habitam também os laboratórios. As controvérsias e debates globais envolvendo figuras centrais da saúde pública, como o Dr. Anthony Fauci, nos lembra de que cientistas, bispos, médicos e sacerdotes são todos feitos do mesmo barro humano. Estão sujeitos a vaidades, pressões políticas, erros de julgamento e paixões do seu tempo.
Não é preciso escolher entre fé e razão. Basta não permitir que os intermediários de ambas obscureçam a verdade. Quando o avião da vida balança na tempestade, precisamos tanto do engenheiro que revisou os motores quanto da prece que acalma o coração. Mantenha os pés firmes no chão da ciência, mas jamais feche os olhos para o infinito do céu.
SÉRGIO CLEMENTINO
Promotor de Justiça em Rio Preto.
Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras