Navegar é preciso
A Noruega não venceu apenas pelo talento. Venceu pela organização, pela disciplina e pela capacidade de fazer onze jogadores atuarem como um só

“Navigare necesse est.” A frase atravessou mais de dois mil anos. Atribuída a Pompeu, general romano, teria sido usada para convencer marinheiros receosos a enfrentar uma tempestade.
Séculos depois, Fernando Pessoa lhe daria novo significado, transformando-a numa metáfora da coragem, do propósito e da permanente busca por novos horizontes.
No domingo, diante da Noruega, o Brasil descobriu que, no futebol, quem melhor compreendeu essa lição foram os herdeiros dos antigos vikings. Muito antes das caravelas portuguesas singrarem o Atlântico, os povos nórdicos já enfrentavam mares revoltos em embarcações extraordinariamente eficientes.
Não chegavam mais longe porque eram mais fortes, mas porque estudavam os ventos, respeitavam o oceano, conheciam a rota e confiavam na tripulação. Coragem sem estratégia era apenas aventura. Foi exatamente isso que se viu em campo.
A Noruega não venceu apenas pelo talento. Venceu pela organização, pela disciplina e pela capacidade de fazer onze jogadores atuarem como um só. Cada movimento tinha lógica, cada marcação um propósito, cada ataque uma construção. Nada parecia improvisado.
O Brasil, por sua vez, ainda alimenta a esperança de que um drible genial ou um lance de inspiração resolva aquilo que o coletivo deixou de construir. O futebol moderno, porém, tornou-se implacável. A genialidade continua sendo um diferencial, mas já não substitui planejamento, preparo e inteligência tática.
Há uma ironia nessa história. Repetimos, há gerações, que “navegar é preciso”, mas esquecemos que navegar jamais significou improvisar. Significou preparar a embarcação, conhecer os limites, corrigir a rota e confiar na competência de quem conduz o leme. A derrota deixa uma lição que ultrapassa o esporte. Talento é indispensável, mas não basta. Sem método, disciplina e propósito, até os maiores potenciais acabam desperdiçados.
Agora, encerrada a Copa para o Brasil, outro grande encontro se aproxima. Não será decidido por um árbitro, mas por milhões de eleitores. Também nele teremos de escolher quem conduzirá a embarcação em mares cada vez mais desafiadores. O país não precisa de salvadores da pátria, nem de líderes improvisados. Precisa de preparo, equilíbrio, respeito às instituições, compromisso com a verdade e capacidade de unir um povo cada vez mais dividido.
Também não há espaço para a misoginia travestida de coragem, nem para o desrespeito transformado em método de governar. Liderança se mede pela competência, pelo caráter e pela capacidade de inspirar confiança, não pelo volume da voz ou pela agressividade.
Fernando Pessoa eternizou a frase “Navegar é preciso”. Talvez tenha chegado a hora de lhe acrescentarmos uma reflexão brasileira: navegar exige conhecer a rota, confiar na tripulação e escolher, com responsabilidade, quem segura o leme.
Porque, no futebol e na democracia, o futuro raramente é obra do acaso. Ele nasce das escolhas que fazemos antes de a partida começar.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme.