Não chores por mim, Argentina
Parecia injusto que um atleta que tantas vezes nos fez acreditar na beleza do futebol encerrasse mais um capítulo de sua história sob o peso de uma derrota. Mas a melancolia durou pouco

Confesso: no domingo fiquei triste.
A derrota da Argentina na final da Copa do Mundo me deixou com uma inesperada sensação de vazio. Não por rivalidade ou preferência futebolística. Como brasileira, sempre torcerei pelo Brasil. Minha tristeza tinha nome: Lionel Messi.
Parecia injusto que um atleta que tantas vezes nos fez acreditar na beleza do futebol encerrasse mais um capítulo de sua história sob o peso de uma derrota. Mas a melancolia durou pouco.
Ainda pensando no jogo, lembrei-me de Homero e de sua monumental Odisseia. Logo depois, vieram à memória as reflexões de Joseph Campbell. Em O Herói de Mil Faces, ele demonstrou que os grandes heróis não são definidos pela vitória final, mas pela transformação produzida ao longo da jornada. Naquele instante compreendi que talvez estivéssemos olhando para o lugar errado.
O placar pertence aos livros de estatística. A jornada pertence à eternidade.
Odisseu, ou Ulisses, não é celebrado porque venceu guerras. Tampouco porque regressou a Ítaca. Sua grandeza reside na travessia. Durante anos enfrentou monstros, tempestades, naufrágios, perdas e a constante tentação de desistir. Ao final, o homem que retorna já não é o mesmo que partiu.
Séculos depois, Campbell mostrou que essa estrutura narrativa se repete em todas as culturas. Chamou-a de Jornada do Herói, o caminho pelo qual o ser humano é transformado pelas provas que enfrenta.
É impossível não reconhecer esse arquétipo em Lionel Messi.
Ainda menino, deixou Rosário para tratar uma deficiência hormonal e perseguir um sonho que parecia grande demais para um garoto tão pequeno.
Sofreu derrotas que milhões acompanharam ao vivo. Foi cobrado, comparado, questionado. Houve quem confundisse discrição com falta de liderança e silêncio com ausência de personalidade.
Mas o herói nunca é definido pelas quedas. É definido pela decisão de continuar.
Assim como Ulisses venceu mais pela inteligência do que pela força, Messi encantou o mundo não pela potência física, mas pela capacidade quase sobrenatural de encontrar caminhos onde ninguém mais os via. Seus dribles sempre pareceram menos um gesto atlético e mais um exercício de imaginação.
Campbell dizia que o prêmio do herói não é o troféu. É a transformação interior conquistada ao longo da viagem.
É isso que distingue um campeão de um herói. O campeão vence competições. O herói transforma pessoas.
Messi ensinou uma geração inteira que a excelência pode ser silenciosa; que a persistência é mais poderosa do que o talento isolado; que cair repetidas vezes não diminui ninguém, apenas prepara a alma para voos mais altos.
Homero chamava isso de retorno. Campbell chamou de arquétipo. Nós chamamos de inspiração.
Talvez seja por isso que alguns homens deixam de pertencer ao seu tempo. Suas histórias passam a habitar um lugar onde vitórias e derrotas já não importam. O que permanece é a travessia.
Por isso, não chores por Messi, Argentina. Os heróis não pertencem aos países. Pertencem à humanidade.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme