Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ARTIGO

Meu nome é Cacilda, professor!

Perguntei-lhe pelo nome. Ela, educada e meigamente, respondeu: “Cacilda, professor!”

por Eurípides A. Silva
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Venho de um tempo em que certas práticas docentes, hoje inaceitáveis, expondo os alunos a situações ridículas, eram toleradas mesmo quando capazes de constranger a classe inteira. A história relatada a seguir dá bem o tom deste preâmbulo.

Numa aula de anatomia humana, o professor interpela um dos alunos: “Quantos rins nós temos?". Ele responde sem hesitar: "Quatro!". O professor, indignado, chama pelo funcionário assistente da sala: “Fulano, traga um pouco de grama! Temos um asno na sala!". O aluno, sagaz e imaginativo, dirige-se ao funcionário: "Por favor, para mim traga bolacha e café!". Sentindo-se ridicularizado, o professor expulsa o aluno da sala. Ele, antes de sair, exclama audacioso: “Ora, quantos rins nós temos! Temos quatro: dois meus e dois seus. Bom apetite, mestre...”.

(Em tempo. Uma das referências que encontrei a respeito do episódio traz como protagonista o jornalista e escritor Apparício Torelly/1895-1971, 'Barão de Itararé', pioneiro do humorismo político no Brasil. Pela oportunidade, deixo uma sugestão aos interessados: um documentário-comédia, narrado por Gregorio Duvivier, disponível na internet, em que o irreverente humorista satiriza “os dois Brasis, o de ontem e o de hoje”. Deixo, também, uma de suas jocosas frases, bem a gosto dos terraplanistas: “Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato!”).

Retomando o parágrafo inicial, anos atrás eu respondia pela disciplina de Matemática num curso de pós-graduação lato sensu, quando vivi uma situação inusitada e constrangedora. Creio que vale a pena descrevê-la.

Eu mantinha o hábito de pronunciar, nas minhas aulas, o nome “Cacilda” como uma interjeição, um recurso pedagógico, destacando as sílabas da palavra. A intenção era despertar a curiosidade dos alunos diante do fascínio de um enunciado, da beleza de um novo conceito ou da engenhosidade da solução de um exercício. Um eufemismo, enfim, que evita o emprego de expressões grosseiras!

Pois bem. Certo dia, após dispensar os alunos para o intervalo, eu apagava o quadro negro quando uma aluna se aproximou de mim e, humildemente, quase sussurrando, me perguntou: “O senhor me chamou?”. Surpreso, após responder-lhe negativamente, a fim de quebrar o silêncio que se estabeleceu, perguntei-lhe pelo nome. Ela, educada e meigamente, respondeu: “Cacilda, professor!”. Meu Deus! Constrangido, só não desmaiei por não ter lembrado...

Para encerrar, não me bastasse essa vivência, anos depois, obrigado a usar uma muleta ortopédica (do tipo “canadense”), dei-lhe o simpático nome de “Gertrudes”, com a ingênua intenção de divertir meus netos. Antes não tivesse feito. Mas essa é outra história!

Eurípides A. Silva

Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.