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ARTIGO

Malba Tahan ainda entra em sala de aula

Malba Tahan revolucionou o ensino ao defender que a matemática deveria ser acessível

por Eurípides A. Silva
Publicado há 3 horasAtualizado há 1 hora
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Se Malba Tahan estivesse vivo, é provável que não visse a Inteligência Artificial como uma ameaça, mas como a mais poderosa ferramenta pedagógica já criada para humanizar a matemática.

Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), conhecido como Malba Tahan, é considerado um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil. Por isso, em 6 de maio, data de seu nascimento, celebra-se no Brasil o Dia Nacional da Matemática. Deixou cerca de 120 obras, dedicadas, sobretudo, à matemática recreativa e à literatura infantojuvenil de temática oriental - um legado que permanece vivo e influente na educação contemporânea. (Seu livro ‘O Homem que Calculava’ é considerado um clássico da literatura infantojuvenil e da educação matemática, com mais de 100 edições desde 1938).

Malba Tahan revolucionou o ensino ao defender que a matemática deveria ser acessível, prazerosa e conectada à realidade dos alunos. Para isso, recomendava o uso de histórias, contos e situações do cotidiano. Visionário, muito antes de se falar em metodologias ativas, valorizava as abordagens centradas no estudante, tornando-o protagonista de sua própria aprendizagem por meio da reflexão crítica, da articulação entre teoria e prática e da superação da repetição mecânica de técnicas.

“O professor, em vez de ser apenas um transmissor de conteúdos, deve ser um abridor de caminhos, atuando como mediador e facilitador, com foco na autonomia e no pensamento crítico do estudante.” Defendia, assim, uma matemática viva, contextualizada e significativa - o verdadeiro “padrão-ouro” do ensino.

Em sua vasta obra, ressaltou a importância da motivação nos processos de ensino e aprendizagem: “Há sempre motivos, em estado latente, na alma do educando. Cabe ao bom professor descobri-los, avivá-los, orientá-los e aproveitá-los, despertando o interesse pelo conteúdo.”

Para encerrar, uma sugestão para motivar o estudante. “O adolescente não estuda apenas com as faculdades mentais. Estuda com o corpo que cresce e se transforma; com a sensibilidade, agitada por sonhos e anseios; com o passado, repleto de conflitos que ressurgem na adolescência; com o presente, muitas vezes marcado por ressentimentos; e com sua individualidade, seu ritmo e suas emoções, tão variadas quanto instáveis. O fenômeno da preguiça escolar não existe. A fadiga é, quase sempre, fruto do desinteresse.” (‘A arte de ser um perfeito mau professor’, Malba Tahan, Ed. Vechi, 1966.)

PS. O Prof. Julio Cesar foi um obstinado defensor, no Brasil, da causa dos hansenianos, dedicando grande parte de sua vida a combater o preconceito e o isolamento social desses doentes. Fez constar em testamento que fosse lida à beira de seu túmulo uma última mensagem de solidariedade aos hansenianos.

Eurípides A. Silva

Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.