Mais que recuperar
Como observa a pedagoga Sílvia Helena Seixas, a pandemia apenas ampliou desigualdades e tornou mais visíveis dificuldades educacionais que já existiam

Reportagem do Diário da semana passada revela que, em 2025, Rio Preto registrou melhora no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) na comparação com o levantamento de 2023. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a nota subiu de 6,4 para 6,6, mas ainda está abaixo dos 6,7 de 2019. Nos anos finais, Rio Preto permanece estacionada em 5,2, contra 5,3 antes da pandemia. No ensino médio, houve uma pequena reação, de 4,4 para 4,5, mas o resultado também não alcança os 4,6 de 2019.
A notícia é boa, mas ainda é pouco para uma cidade do porte e da importância de Rio Preto. A pandemia explica parte do retrocesso, mas não pode continuar servindo como justificativa permanente. O vírus passou, mas as consequências permanecem - e cabe ao poder público enfrentá-las. Mais do que recuperar os indicadores perdidos, é preciso recuperar as aprendizagens perdidas. E isso demanda uma política educacional muito mais ambiciosa do que simplesmente esperar a próxima edição do Ideb para saber se a nota subiu alguns décimos.
Os números revelam, ainda, que problemas anteriores à pandemia continuam presentes. Como observa a pedagoga Sílvia Helena Seixas, a crise sanitária ampliou desigualdades e tornou mais visíveis dificuldades que já existiam. Portanto, voltar aos índices de 2019 não pode ser tratado como ponto de chegada.
O primeiro compromisso, óbvio, deveria ser com a alfabetização. Uma criança que não aprende a ler e escrever adequadamente nos primeiros anos carrega uma desvantagem que tende a crescer ao longo de sua vida escolar.
É igualmente necessário olhar para quem está dentro das salas de aula. Não se pode exigir melhores resultados dos professores sem discutir seriamente formação continuada, condições de trabalho, tempo para planejamento, estrutura das escolas e valorização profissional. A qualidade da educação passa inevitavelmente pela qualidade das condições oferecidas a quem ensina.
Há uma lição importante nos próprios números da região que Rio Preto deveria observar com atenção. Municípios pequenos obtiveram resultados extraordinários. Floreal chegou a 8,8 nos anos iniciais; Irapuã alcançou 6,9 nos anos finais; Sebastianópolis do Sul marcou 6,3 no ensino médio. Santana da Ponte Pensa, Nipoã, Santa Salete, Palmares Paulista, Nova Canaã Paulista, Mira Estrela, Tabapuã, Paraíso e Ariranha também aparecem entre os melhores resultados do Estado.
É evidente que não se pode comparar diretamente redes de tamanhos e realidades tão diferentes. Mas seria um desperdício não investigar o que está dando certo nesses municípios.
O Ideb é importante, mas é preciso ver além do ranking. Uma nota é consequência de um processo educacional, não é o próprio processo. Mais importante que subir alguns décimos é fazer com que cada estudante efetivamente aprenda. Rio Preto não precisa apenas recuperar o passado, mas construir uma educação melhor do que aquela que tinha antes da pandemia.
A melhora do Ideb é um sinal de que há caminho para avançar. Compete ao Estado e ao município transformar esse sinal em política permanente, investimento consistente e resultado concreto na sala de aula.