Lições de voo
A aeronave tem saídas de emergência na frente, no meio e atrás. Não olhe só para uma direção. Às vezes, para acessar a melhor saída é preciso dar um passo para trás

Senhores passageiros, sejam bem-vindos ao nosso voo. Pedimos sua atenção para as instruções, mesmo se já viajaram anteriormente. Da mesma forma que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, não se voa também no mesmo céu: as condições climáticas mudam, a aeronave nunca está exatamente na mesma condição, o comissário não é o mesmo e você também não é a mesma pessoa da viagem anterior.
É importante que leia o cartão de instruções. Aliás, é importante que você leia. Aqui ou fora daqui, a leitura poderá ser uma questão de vida ou morte, literal ou simbólica. À frase atribuída a Monteiro Lobato ou a Ênio Silveira, que diz que quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê, acrescento que mal vota também. E não vale ler só uma fonte. Uma leitura única falseia sua impressão a respeito do tema. Também não vale ler só o que a internet lhe manda. As redes têm sido nossas “grandes mestras” para a intensificação da polarização. O que lhe é enviado é somente o que se alinha com o que você já pensa e você fica com a impressão de que sua opinião é a única correta e que todo o restante do mundo, que não pensa como você, está errado ou é idiota ou é inimigo. Não ler sempre traz consequências.
A aeronave tem saídas de emergência na frente, no meio e atrás. Não olhe só para uma direção. Às vezes, para acessar a melhor saída é preciso dar um passo para trás. Os sinais luminosos podem parecer exagerados, mas as situações podem ser mais adversas do que você imagina, por isso, não despreze os sinais.
Atenda sempre às orientações da equipe de comissários. Parece que só servimos para distribuir guaraná e amendoim, mas passamos por um treinamento rigoroso do tipo que a gente espera nunca ter que testar. Ouça quem foi treinado para situações complicadas e tem mais experiência do que você.
Na saída, aguarde sentado a abertura das portas. Ficar em pé no corredor não fará as portas se abrirem mais rápido. O controle das grandes ansiedades se dá também a partir do exercício de controle da ansiedade nas pequenas situações.
Desligue seu celular. É pouco provável que seu sinal atrapalhe a comunicação no voo, porque os sistemas aéreos têm uma boa blindagem, mas melhor não arriscar. Aliás, buscar trabalhar com risco zero é o lema da aviação. Esse período sem celular pode lhe ajudar a sair dessa compulsão digital contemporânea, que faz você ter a falsa impressão de que é impossível ficar algumas horas desconectado.
No caso de descompressão, máscaras cairão automaticamente do compartimento acima da sua poltrona. Coloque a máscara primeiro em você, mesmo que ao seu lado tenha alguém que precise de ajuda. Se você desmaiar, correrão risco você e a outra pessoa. Ficar bem para cuidar do outro não é egoísmo, é cuidado coletivo e sabedoria.
E como já nos disse Guimarães Rosa que o real não está na saída nem na chegada, mas que ele se dispõe para a gente é no meio da travessia, desejamos que aproveitem seus destinos, mas não esqueçam de aproveitar também seus voos. Que tenhamos todos uma boa viagem.
Monica Abrantes Galindo
É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo