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Judicialização do 'recorde': exagerado e inútil

por Fernando Fukassawa
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Fernando Fukassawa (DIARIO)
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Fernando Fukassawa (DIARIO)
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O Ministério Público Federal é instituição exemplar, a quem a sociedade muito deve por defender bravamente o interesse público. Mas, em Minas Gerais, ele propôs ação judicial contra a Rede Globo porque seus jornalistas estariam pronunciando como “RÉ-corde”, quando o correto, segundo a norma culta, seria “re-CÓR-de”. A questão teria potencial para induzir o público ao erro linguístico coletivo. Para reparar o dano, pede que a emissora corrija a pronúncia em seus programas — e pague uma indenização de alguns milhões de reais por lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa.

Pode-se imaginar a cena: a língua portuguesa entrando no tribunal, discretamente ofendida, acompanhada por advogados, gramáticos e também por Silveira Bueno e seu imenso dicionário como testemunha. Não sou linguista, não lido com gramaticalidade, e nem seria pessoa adequada a discutir as delicadezas da prosódia. E tem inteira razão o MPF, que a Academia Brasileira de Letras reconhece oficialmente a forma recorde, paroxítona, sem acento gráfico. Nos jornais impressos, aliás, essa grafia reina tranquila, sem contestação.

Mas a língua falada tem hábitos mais independentes. Muitas pessoas acabam aproximando a pronúncia do inglês “record”. Se a vigilância linguística se intensificar, talvez seja preciso ampliar o trabalho de fiscalização. Abundam palavras estrangeiras circulando livremente por aí, sem qualquer controle das autoridades. Algumas delas: “Shopping center”, que talvez precise voltar à condição de centro comercial. O “delivery” teria de reaprender a ser apenas entrega em domicílio. O “spoiler”, essa criatura que estraga finais de filmes, precisaria atender pelo nome de revelação antecipada do enredo. O simpático “crush” provavelmente teria de voltar à antiga identidade de paquera. Sem falar nas “fake news”, que seriam obrigadas a assumir a forma honesta e direta de notícias falsas.

A língua, no entanto, raramente consulta tribunais antes de evoluir.

Durante muito tempo o idioma estrangeiro da moda entre nós foi o francês. Vieram dele palavras hoje perfeitamente integradas à vida nacional: abajur, batom, garagem, vitrine. Ninguém mais as pronuncia com sotaque parisiense, mas todas chegaram como visitantes estrangeiras. Depois da Segunda Guerra Mundial, o centro de influência mudou de endereço e o inglês assumiu o papel de grande fornecedor de novidades linguísticas. Vieram junto a música, o cinema, os negócios e uma quantidade razoável de palavras. Combater todos os estrangeirismos talvez seja tarefa comparável a tentar impedir que o mar avance e recue na praia.

As línguas funcionam de maneira curiosa, e sempre surge uma vaga de anglicismo. Há um período de imitação desordenada, até efervescente. Logo depois se estabelece o equilíbrio, e só ficam os vocábulos que oferecem qualquer novidade. É exagerado e inútil berrar contra isso. A adoção de estrangeirismo é uma lei humana, e constitui como que uma fatalidade, devida aos intercâmbios das civilizações. A língua, especialmente o vocabulário, só tem a lucrar com isso. O ponto está em que essa imitação não exceda os limites do razoável, e não afete a própria essência do idioma nacional.

Quanto ao recorde, é muito provável que continue sendo pronunciado de maneiras diferentes por algum tempo porque ainda não está totalmente nacionalizada. Enquanto o papel aceita a regra paroxítona (re-CÓR-de), a boca do falante opera a transição para a forma inglesa. Punir a emissora por isso é ignorar a evolução natural e variação linguística do idioma em um mundo globalizado. Se a comunicação ocorre sem ruídos, o estrangeirismo cumpriu a sua função social.

A língua portuguesa já enfrentou desafios maiores, e provavelmente continuará sobrevivendo às variações da fala, e também aos excessos de zelo de quem decide defendê-la nos tribunais. No fim das contas, quem costuma dar a palavra final não é o tribunal, nem o dicionário. É o povo, que raramente pede licença quanto ao jeito de falar.

Fernando Fukassawa

Advogado, professor de direito e promotor de Justiça aposentado