Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
RADAR ECONÔMICO

Jornada menor exige responsabilidade maior

por Jean Daher
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
Jean Daher (Jean Daher)
Galeria
Jean Daher (Jean Daher)
Ouvir matéria

Poucos temas mobilizam tanto a sociedade quanto a relação entre trabalho, renda e qualidade de vida. A discussão sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil, portanto, é legítima, necessária e merece ser tratada com seriedade. Não há dúvida de que todo avanço capaz de melhorar a vida do trabalhador deve ser considerado por um país que busca mais equilíbrio social, mais produtividade e relações econômicas mais modernas. O ponto central, porém, está em compreender que uma boa intenção, quando mal conduzida, pode produzir efeitos contrários aos que pretende alcançar.

A economia real não funciona por decreto. Ela responde a custos, margens, produtividade, tributação, crédito, consumo e capacidade de adaptação. Ao se alterar uma regra estrutural das relações de trabalho, especialmente em um país tão desigual em setores, regiões e portes empresariais, é preciso observar quem absorverá o impacto inicial dessa transição.

É exatamente por isso que o debate não deve ser colocado como uma disputa entre quem defende o trabalhador e quem defende o empresário. Essa divisão é falsa e empobrece a discussão. O trabalhador precisa de qualidade de vida, previsibilidade e remuneração digna; a empresa precisa de condições para continuar existindo, produzindo, investindo e empregando. Quando uma dessas pontas é desconsiderada, a outra também sofre. Não existe emprego sustentável sem empresa sustentável.

A pergunta responsável, portanto, não é apenas se o país deve discutir uma jornada mais moderna. A pergunta é como fazer isso sem fragilizar os pequenos negócios, sem elevar desorganizadamente os custos de produção e sem comprometer a formalização do trabalho. Em uma economia já marcada por carga tributária elevada, burocracia persistente e custo de capital alto, transferir integralmente o ônus da mudança ao empregador significa ignorar que o Estado também participa da relação econômica e captura parcela expressiva da riqueza gerada pela atividade produtiva. Se a sociedade deseja avançar nesse tema, a responsabilidade pela transição também precisa ser compartilhada.

É preciso reconhecer que produtividade não se constrói apenas com mudança de jornada. Ela depende de educação, tecnologia, gestão, infraestrutura, segurança jurídica e ambiente de negócios. Países que avançaram em modelos mais flexíveis de trabalho não o fizeram apenas por vontade política, mas por maturidade econômica, investimento em inovação e capacidade de medir resultados. .

Em cidades como Rio Preto, onde comércio, serviços, indústria, agronegócio e pequenos empreendedores têm papel decisivo na dinâmica econômica regional, esse debate ganha contornos ainda mais concretos. A mudança na jornada não impacta apenas balanços empresariais. Ela alcança o funcionamento das lojas, a oferta de serviços, o atendimento ao consumidor, a organização dos turnos, os custos operacionais e a capacidade de manter equipes formais. Por isso, a voz do setor produtivo regional precisa estar presente nessa discussão, não para impedir avanços, mas para garantir que eles sejam viáveis, equilibrados e duradouros.

A Acirp entende que o Brasil deve discutir o futuro do trabalho com coragem, mas também com responsabilidade. O país não precisa escolher entre qualidade de vida e atividade econômica. Precisa construir uma solução que concilie ambos os objetivos. Para isso, é indispensável que o debate seja técnico, amplo, transparente e afastado de pressões momentâneas. Mudanças dessa magnitude não podem nascer de atalhos, slogans ou urgências eleitorais. Precisam nascer de estudo, diálogo e compromisso com os efeitos de longo prazo.

A redução da jornada pode, sim, fazer parte de uma agenda moderna de relações de trabalho. Mas, para ser avanço e não apenas intenção, precisa considerar a capacidade real de adaptação das empresas. O verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pela velocidade com que uma mudança é aprovada, mas pela qualidade dos resultados que ela entrega à sociedade. Queremos um país no qual as pessoas trabalhem melhor, vivam melhor e produzam mais. Para chegar lá, no entanto, precisamos de responsabilidade econômica, segurança jurídica e respeito à realidade de quem empreende todos os dias. Sem isso, uma pauta legítima pode se transformar em risco para aqueles que ela pretende proteger.

Jean Daher

Presidente da Acirp