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Conjuntura

Insatisfação

A educação era vista como o espaço de ascensão social, através do estudo e do esforço; hoje, as perspectivas de sucesso se limitam aos jogos de azar e às gastanças nas empresas de apostas

por Ary Ramos da Silva Júnior
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
Ary Ramos da Silva Júnior (Ary Ramos da Silva Júnior)
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Na sociedade contemporânea, percebemos grandes movimentações econômicas, sociais e políticas, que acirram os conflitos econômicos em todas as regiões do mundo, gerando incertezas e instabilidades crescentes. Tudo isso contribui imensamente para compreendermos as insatisfações da sociedade. Vivemos num momento em que as pessoas estão insatisfeitas, os trabalhadores estão insatisfeitos, as famílias estão insatisfeitas, os empresários estão insatisfeitos, os estudantes estão insatisfeitos, os professores estão insatisfeitos, ou seja, estamos vivendo ou sobrevivendo, numa sociedade marcada por insatisfação.

A sociedade contemporânea se caracteriza pelo crescimento tecnológico. Nesta sociedade, percebemos transformações profundas e estruturais, os comportamentos estão em constantes alterações, os modelos de negócios estão sendo modificados, os relacionamentos estão sendo revistos e transformados, as ocupações e o mundo do trabalho estão sendo alterados, criando um modelo de sociabilidade que impõe mudanças e limitações, gerando medos, ressentimentos e desequilíbrios afetivos e sentimentais.

Os governos se sucedem, entra governo e sai governo, e as melhoras são sempre marginais, as mudanças são apenas limitadas e temporárias. Os pais estão cada vez mais assustados com o futuro de seus filhos e de seus netos, a tão sonhada ascensão social nos parece, cada vez mais, distante e improvável. Os jovens não querem mais constituir famílias, evitam ser pais e se limitam a uma vida solitária, sem descendentes e sem auxílios na velhice.

Neste cenário, percebemos um estímulo e uma revolta contra a política, uma crítica sistemática contra os governos de plantão e as instituições, vistas como os responsáveis pelas condições degradantes do cotidiano, desta forma, percebemos o crescimento de grupos extremados, acreditando que assim vão conseguir melhoras na sociedade, garantindo liberdade e sucesso.

Vivemos numa sociedade onde a escola pública está sendo devastada e destruída, anteriormente a educação era vista como o espaço de ascensão social, através do estudo e do esforço familiar podíamos vislumbrar horizontes de sonhos e acreditarmos em um mundo melhor, dotado de novas oportunidades e abundância material para todos, infelizmente essa possibilidade perdeu espaço e as perspectivas de sucesso se limitam aos jogos de azar e as gastanças nas empresas de bets, um verdadeiro cassino global, enriquecendo poucos e degradando a maioria da sociedade, desta forma, as famílias estão cada vez mais endividadas, as doenças mentais crescem aceleradamente e a depressão acomete uma parte substancial da sociedade global.

A educação sempre foi vista como um espaço de ascensão social, famílias inteiras se cotizavam para auxiliar seus descendentes no caminho do estudo e do crescimento profissional, hoje o estudo sozinho não consegue abrir horizontes sólidos e consistentes, os esforços são sempre insuficientes, sabemos, ainda, que os profissionais mais qualificados são recompensados com melhores empregos, salários mais atrativos e maior possibilidade de ascensão social, mas na maioria das vezes, os melhores empregos são reservados para os bem nascidos, os mais abastados e os dotados de melhor networking.

Neste ambiente, estamos vivendo uma sociedade marcada por pessoas insatisfeitas, amedrontadas e com perspectivas limitadas, desta forma, evitamos ter filhos, evitamos relacionamentos, nos prendemos em casa e consolidamos uma sociedade cada vez mais individualista, imediatista e focada no lucro. Será que ainda não passou da hora de pensarmos e repensarmos o modelo dominante de sociedade que estimula todos estes desequilíbrios?

Ary Ramos da Silva Júnior

Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.