Impressão ou transformação?

É sempre muito curiosa a maneira pela qual muitas pessoas opinam sobre a situação econômica de uma cidade, região ou país. Na verdade, a opinião dessas pessoas é mais uma “impressão” que têm sobre determinada condição que, normalmente, é analisada completamente fora de um contexto. E considerar esse contexto é justamente o que poderia explicar de forma racional aquilo que, de fato, contribuiu para dar origem a tal condição.
Um exemplo que ilustra bem como a “impressão” de um observador mal informado pode se tornar uma análise equivocada da situação econômica, são as implicações que decorrem das reestruturações dos espaços urbanos em áreas conhecidas como “centro” de um município. Em 1998, a professora Maria Encarnação Beltrão Sposito, renomada geógrafa e pesquisadora brasileira, publicou artigo no qual explica que a redefinição da centralidade urbana passou a ser determinada por quatro dinâmicas que expressam um conjunto de mudanças sociais, econômicas e espaciais. Essas dinâmicas relacionam-se: aos novos padrões de localização dos equipamentos comerciais e de serviços; às transformações econômicas expressas em formas flexíveis de produção; à própria redefinição da centralidade urbana; e, à redefinição do cotidiano frente ao crescimento da importância conferida ao lazer e ao tempo destinado ao consumo.
As dinâmicas mencionadas pela docente podem fazer com que um consumidor opte por preferir fazer compras em um shopping center localizado numa região periférica do município, ao invés de ir ao tradicional centro urbano, onde, há algumas décadas, concentravam-se as atividades comerciais mais importantes. Desta forma, não é possível afirmar que a existência de diversos prédios e espaços comerciais desocupados, na área central de um município, seja uma evidência de que a economia daquela localidade, ou do próprio país, passa por um momento delicado. É preciso considerar, numa eventual análise séria, por exemplo, pelo menos uma das dinâmicas citadas pela professora Sposito: “novos padrões de localização dos equipamentos comerciais”.
Além disso, existem fontes de pesquisa, como é o caso de relatórios produzidos por entidades representativas de setores econômicos, que evidenciam mudanças claras no comportamento de consumo, as quais afetam diretamente negócios que não acompanharam essas novas tendências comportamentais e expectativas dos consumidores. Um desses relatórios, denominado Webshoppers, é produzido pela Nielsen/Ebit, desde 2001, e oferece uma visão completa do e-commerce brasileiro. Na 51ª edição, disponibilizada em 2025, o relatório que apresentou dados de 2024, apontou um faturamento de R$ 351,4 bilhões, valor esse que colocou o comércio eletrônico do país como o segundo maior canal de vendas. Outro dado interessante foi o de que o faturamento daquele ano foi 19,1% maior, quando comparado ao de 2023. Nesse mesmo período comparativo, o aumento dos shoppers ativos (consumidores que compram pelo e-commerce com certa frequência) foi de 15,9%. Em outras palavras, se mais consumidores estão comprando em lojas virtuais, menos estão comprando nas lojas físicas.
Outro relatório interessante é o elaborado pela ABF – Associação Brasileira de Franchising, o qual oferece um conjunto robusto de dados sobre o desempenho das franquias no país. No relatório referente ao ano de 2025, observa-se que esse setor faturou R$ 301,7 bilhões, e apresentou um crescimento de 10,5% em relação ao ano de 2024. Os três segmentos de franquias que mais faturaram foram: Saúde, Beleza e Bem Estar (R$ 74,3 bilhões); Alimentação Food Service (R$ 51,8 bilhões); e, Serviços e Outros Negócios (R$ 40,5 bilhões). O relatório estima, ainda, os seguintes números para 2026: crescimento do faturamento entre 8 e 10%; aumento de 2 a 4% das redes de franquias; e, geração de empregos diretos, entre 1 e 3%.
Por fim, é oportuno ressaltar que, desde sempre, a economia tem relação direta com as transformações que ocorrem nos espaços urbanos e na sociedade. Assim sendo, não há como compreender ou analisar nenhum aspecto econômico sem conhecer ou querer ignorar as dimensões que podem alterá-lo.
Ademar Pereira dos Reis Filho
Doutor pelo IGCE/Unesp de Rio Claro, docente da Fatec Rio Preto