Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
PAINEL DE IDEIAS

Futebol: arte e filosofia

A descomunal expectativa da Copa se resume num ato transitório, prazer impetuoso e imprudente: a euforia se extingue, murmúrios se apagam e a vida prossegue

por Romildo Sant’anna
Publicado em 19/07/2026 às 00:59
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
Galeria
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
Ouvir matéria

Pouco atinamos ao fato de que o romancista e filósofo franco-argelino Albert Camus foi, na juventude, goleiro do Racing Universitaire, na Argélia. À revista ‘Belle Époque’ (1953), de sua antiga equipe, confessou: “Tudo que sei sobre a moral e obrigações dos homens devo ao futebol”. Soa simplório, irrefletido, se pensarmos no futebol pós-moderno, desenraizado e mercantil, eivado de tacanhos, corrompidos comandantes. Camus exaltava esse esporte como modelo de vida: o companheirismo, o comprometimento com o coletivo e respeito às regras do jogo. Nascidos aqui, alguns jogadores famosos deixaram de ser sublimados como “corpos triunfantes desafiando a lei da gravidade”, como os delineara Drummond em ‘Poesia Errante’ (1988). São celebridades toscas, painéis andantes, apátridas.

Em países de baixa instrução escolar como o Brasil, ostentações medíocres interferem nos costumes: o personalismo exacerbado, o desfibramento moral, o narcisismo da vida aparente, finória, o apetite das vantagens, ansiedade de direitos e desdém às obrigações. Quem dá mais? Diferentemente, no romance ‘A Peste’ (1947), o ganhador do Prêmio Nobel da Literatura propugnava a solidariedade entre pessoas frente ao individualismo. Ponderava que a liberdade do cidadão não exclui seus encargos perante o outro e a sociedade. São ideias gestadas em campos de futebol, na perspectiva de um goleiro, em fins da Segunda Guerra.

Raramente o futebol é tematizado em dimensões espiritualizadas. Uma das exceções é a fita ‘A Copa’ (1999), filmada num mosteiro budista e dirigida pelo monge butanês Khyentse Norbu. Tendo o Campeonato Mundial como um fogo das paixões, constrói reflexões sobre tradição e modernidade, ambições e desapegos. Na obra, a relação entre noviços e os mestres idosos constrói consensos entre gerações. Os anciões e seus dogmas religiosos talvez não compreendam de “idolatrias da bola”, mas nunca reagem com autoritarismo. Há tolerância, liberdade, comiseração. Com exemplos da própria vida, ensinam que a sabedoria não está nas imposições, mas na aceitação às diferenças.

Um garoto budista é admirador de um atleta da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo da França, em 1998. Sob seu manto de monge-aprendiz esconde-se a Camisa 10 do craque Ronaldo. Solicita permissão ao abade do mosteiro para instalarem uma antena parabólica e, todos juntos, assistirem ao jogo final, decisivo. A derrota dos brasileiros para os franceses resulta um marco simbólico. A descomunal expectativa da Copa se resume num ato transitório, prazer impetuoso e imprudente: a euforia se extingue, murmúrios se apagam e a vida prossegue. Depreende-se que muitos lances grandiosos se revelam ínfimos e neles germina a impermanência das coisas ilusórias. Como nas meditações do grande escritor Albert Camus, também do futebol haveremos bastante que aprender.

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos.