Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
PAINEL DE IDEIAS

Fernando Pessoa como crítico literário

Embora amasse a língua portuguesa, os seus textos indicam também sentimentos despatriotas, juntamente com os nacionalistas

por Durval de Noronha Goyos Jr.
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Durval de Noronha Goyos Jr. (Durval de Noronha Goyos Jr.)
Galeria
Durval de Noronha Goyos Jr. (Durval de Noronha Goyos Jr.)
Ouvir matéria

Fernando Pessoa (1888-1935) não foi apenas o mais preeminente poeta lusófono do século 20, mas também um crítico literário, jornalista e ativista social. Um livro, “Fernando Pessoa – Uma História da Literatura Portuguesa”, de março deste ano, organizado por Nuno Ribeiro, pela Penguin, reúne textos esparsos conhecidos ou inéditos, ortônimos ou heterônimos, do escritor português, os quais trazem luzes sobre o seu trabalho, o seu gênio e muitas manifestações das suas psicoses. Nuno Ribeiro é um consagrado autor de aproximadamente 30 livros sobre a obra do Poeta, publicados em 6 países.

A loucura do Poeta, admitida por ele próprio e caracterizada possivelmente por esquizofrenia, transtorno bipolar, mitomania, dipsomania e escapismo, dentre outros sintomas, talvez responsável pelo seu gênio literário, não teve o mesmo efeito sobre suas notas críticas, compiladas no excelente trabalho sob comento. Ao contrário, o material serve para a recorrente investigação, já feita por Pessoa, de maneira obcecada e frenética, fundada em Cesare Lombroso, dentre outros, sobre as ligações entre o gênio, a loucura e a degeneração.

Na “História da Literatura”, abundam as contradições, incoerências, paradoxos e contrassensos da alma do Poeta. Embora amasse a língua portuguesa, os seus textos indicam também sentimentos despatriotas, juntamente com os nacionalistas. Pessoa compara “Os Lusíadas”, de Camões, a “Jerusalém Libertada”, de Torquato Tasso e “Orlando Furioso”, de Ariosto, e a exalta a obra como representativa da grandeza, da heroicidade ou patriotismo lusitano. Por outro lado, o Poeta considera o escritor Alfredo Pimenta “impenetravelmente português, e, o que é pior, provincianamente português...” Um “escravo da hipnose do estrangeiro”.

Para Pessoa, apenas 3 poetas lusitanos do século 19 mereceram o título de “mestre”: Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Segundo ele, Quental, o melhor deles, foi mesmo superior aos italianos da época, dentre os quais contam-se Leopardi, Quasimodo, Pirandello, Ungaretti, Montale e Marinetti, assertiva que causa uma certa perplexidade crítica. De acordo com o autor de “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”, o novo latim seria o inglês (sic). Vários sentimentos preconceituosos, opiniões ou conceitos de Pessoa indicam paradoxos pertinentes à maçonaria e ao salazarismo. A sua conhecida posição anticlerical e antagônica à Igreja, é evidente, como ainda o antissemitismo. Numa crítica (misógina) a um trabalho de Lutegarda de Caires, o Poeta recomenda “a missão de ser esposa, mãe, cozer a sopa do marido, escovar-lhe; ver que as criadas limpam bem o pó e que o jantar esteja na mesa a horas – nisto está a sua poesia”.

Sua obra crítica exprime sentimentos homossexuais e demonstrações de sexualidade reprimida, a exemplo da aversão ao casamento, por vezes transportadas para terceiros, como Mário de Sá-Carneiro: “Com característica ingenuidade, mal sabe o autor quanto confessa de si... Quanto mais sexualmente nos fala, mais sexual se nos revela... Acabamos por ter uma grande piedade médica por ele”. Sobre Correia de Oliveira, escreveu: “... mostra a intuição desligada da inteligência e do espírito crítico”. Mas o próprio Pessoa havia escrito, talvez em autodefesa: “tenho em mim, continuamente, em tudo o quanto escrevo, a exaltação do poeta e a despersonalização do dramaturgo”. O todo sugere que os seus desassossegos mentais impulsionaram o gênio lírico e determinaram a modéstia do crítico.

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.

Autor polígrafo. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores. Da Academia de Letras de Portugal. Ex-diretor internacional do Sindicato dos Escritores - SP. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras