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Conjuntura

Estamos cada vez mais distantes

por Hipólito Martins Filho
Publicado há 4 horasAtualizado há 4 horas
Hipólito Martins Filho (Hipólito Martins Filho)
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O Brasil vem ampliando a distância de PIB per capita em relação à média mundial. Desde os anos 1980, o país não acompanha o ritmo de crescimento global e hoje apresenta renda per capita inferior à média do planeta. Nas últimas quatro décadas e meia, o crescimento econômico brasileiro foi insuficiente para romper a chamada armadilha da renda média.

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, entre 1980 e 2025 o PIB per capita global saltou de US$ 3.380 para US$ 26.188, um avanço de aproximadamente 675%. No mesmo período, o Brasil passou de US$ 4.427 para US$ 23.380, crescimento de cerca de 428%. Ou seja, apesar de ter avançado, o país cresceu em velocidade muito inferior à da economia mundial.

Para comparações internacionais, utiliza-se a metodologia da Paridade do Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês), que ajusta as diferenças de custo de vida entre os países. O PIB per capita é um indicador importante porque mede, em média, a riqueza disponível por habitante e oferece uma noção do padrão de vida da população.

A principal explicação para o desempenho mais fraco do Brasil está na baixa produtividade da economia, nos investimentos insuficientes e em um ambiente de negócios ainda complexo e burocrático. Somam-se a isso os avanços limitados nas áreas de educação, inovação e qualificação da mão de obra.

O estudo mostra ainda que o PIB per capita mundial ultrapassou o brasileiro em 2015, justamente no período em que o país mergulhou em uma profunda recessão econômica. Desde então, o Brasil não conseguiu manter um ritmo consistente de crescimento. Alterna períodos curtos de expansão com fases de desaceleração, sem consolidar um ciclo sustentável de desenvolvimento.

Parte desse problema decorre também da falta de continuidade das políticas públicas. Por disputas ideológicas e interesses políticos, governos frequentemente abandonam projetos estruturais iniciados por administrações anteriores. O resultado é uma economia marcada por avanços pontuais e retrocessos frequentes, incapaz de desenvolver plenamente seu potencial.

Entre 1980 e 2025, o Brasil cresceu menos até mesmo do que diversas economias emergentes. E isso ajuda a explicar por que o país permanece distante das nações de alta renda, aquelas com PIB per capita acima de US$ 50 mil anuais.

A década de 1980 ficou conhecida como a “década perdida”. O país enfrentou grave crise da dívida externa, moratória e hiperinflação, problemas que só começaram a ser resolvidos com o Plano Real. Foram aproximadamente 15 anos de instabilidade severa. Após o Plano Real, houve recuperação econômica e algumas reformas importantes, mas o avanço necessário em áreas estratégicas não ocorreu na intensidade exigida.

O atraso brasileiro é conhecido há décadas: baixa produtividade, economia relativamente fechada ao comércio internacional, ambiente desfavorável aos negócios, excesso de burocracia e deficiência na qualificação profissional.

Entre 1950 e 1980, o país se beneficiou do modelo de substituição de importações e da migração de trabalhadores do campo para a indústria. Esse movimento aumentou a produtividade e permitiu taxas elevadas de crescimento econômico. A partir dos anos 1980, porém, os desafios mudaram. Já não bastava transferir recursos entre setores; tornou-se necessário elevar a produtividade dentro de cada setor da economia.

Isso é particularmente importante no setor de serviços, que hoje representa cerca de 70% do PIB brasileiro e concentra a maior parte dos empregos. O problema é que tanto a produtividade industrial quanto a dos serviços praticamente não crescem desde meados dos anos 1990.

Não há como aumentar o PIB per capita e superar a armadilha da renda média sem investir fortemente em capital humano, construir instituições sólidas, melhorar a eficiência na alocação de recursos e integrar o país às cadeias globais de produção.

Como observa Fernando Veloso, diretor de pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, o Brasil “perdeu o bonde da globalização” e corre o risco de também perder o da inteligência artificial.