Equilíbrio é, sobretudo, aceitar o contraditório

Recentemente, o prefeito de São José do Rio Preto defendeu, neste Diário, a necessidade de equilíbrio diante da tensão política que a cidade atravessa. É uma defesa legítima — nenhuma sociedade prospera quando troca o debate por insultos ou a crítica por desqualificação pessoal. O radicalismo, de fato, pouco constrói.
Mas justamente por isso vale perguntar: equilíbrio, para quem governa, significa o quê exatamente?
Não é ausência de críticas. Tampouco é a expectativa de que todos aceitem as decisões do governo sem ruído. Democracias maduras não se constroem pelo silêncio das divergências — constroem-se pela capacidade de conviver com elas de forma civilizada e institucional.
Ao afirmar que existe uma articulação política voltada a produzir desgaste e dificultar o avanço do município, o prefeito apresenta uma leitura possível dos fatos. Leitura possível, não explicação automática. Quando toda crítica, denúncia ou investigação passa a ser interpretada pelo mesmo ângulo — o da má-fé do adversário —, o debate político se converte em disputa moral entre aliados virtuosos e opositores mal-intencionados. E isso não é equilíbrio; é a reedição de uma lógica antiga, na qual a divergência deixa de ser reconhecida como parte da democracia e passa a ser tratada como ameaça.
A própria defesa da legalidade, corretamente invocada pelo prefeito, exige coerência. Se tudo aquilo que estiver errado deve ser investigado com rigor, então a fiscalização não pode ser tratada como obstáculo. Ela é parte essencial do funcionamento das instituições. O papel da Câmara Municipal, da imprensa, dos órgãos de controle e da sociedade civil não é facilitar a vida de quem governa — é assegurar que o interesse público permaneça acima de qualquer projeto político.
Da mesma forma, a verdade não pertence a nenhum lado. Numa República, ela emerge do confronto legítimo entre versões, da transparência dos atos públicos e da atuação independente das instituições. Nenhum governante pode ocupar, ao mesmo tempo, o lugar de quem decide, executa, explica e fiscaliza.
Toda administração tem o direito — e o dever — de apresentar suas realizações. Faz parte do jogo democrático. Mas cobranças, perguntas incômodas e discordâncias também fazem parte desse jogo. Não há contradição entre governabilidade e fiscalização: ao contrário, uma boa governabilidade se fortalece quando aceita ser observada e questionada.
Rio Preto não precisa escolher entre estabilidade e debate público. Precisa das duas coisas. De uma política menos movida por paixões partidárias e mais comprometida com argumentos, evidências e responsabilidade institucional. E precisa reconhecer que oposição responsável não é a que deseja o fracasso da cidade — é a que impede o poder de se acostumar à ausência de limites.
O verdadeiro equilíbrio democrático não se faz reduzindo vozes divergentes. Faz-se elevando a qualidade da conversa pública. Governar é decidir, mas também é prestar contas. Fiscalizar é questionar, mas é preciso fazê-lo com seriedade. Entre a balbúrdia e o silêncio, há um caminho mais exigente: o da democracia adulta.
E uma democracia adulta não teme o contraditório — aprende com ele.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados