EDITORIAL

Uma geração infeliz

Pesquisa realizada com 1.500 pessoas mostra que 71% dos jovens entre 16 e 24 anos afirmam que se sentem infelizes após consumir conteúdo nas redes

por Da Redação
Publicado há 4 horasAtualizado há 4 horas
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O Relatório Mundial da Felicidade 2026 não chegou com esperança. Produzido pelo Centro de Pesquisa sobre Bem-Estar da Universidade de Oxford em parceria com a ONU, o documento consultou adolescentes de 15 anos em cerca de 50 países e chegou a uma conclusão preocupante: o uso excessivo de redes sociais está diretamente associado à queda no bem-estar juvenil.

Jovens que dedicam menos de uma hora diária às redes sociais apresentam os maiores níveis de bem-estar. No entanto, a média global de uso entre adolescentes chega a 2,5 horas por dia. A geração mais jovem do planeta vive, coletivamente, além do ponto de equilíbrio. E paga por isso.

No Brasil, os dados domésticos confirmam e aprofundam esse diagnóstico. Pesquisa realizada com 1.500 pessoas no País mostra que 71% dos jovens entre 16 e 24 anos afirmam que se sentem infelizes após consumir conteúdo nas redes, percentual quase o dobro do registrado entre idosos. Entre esses mesmos jovens, 77% relatam comparar suas vidas com as dos outros nas plataformas, e 63,4% se declaram dependentes das redes.

A tristeza juvenil deixou de ser subjetiva. Ela tem endereço nos prontuários e nas filas do SUS. Entre 2014 e 2024, o atendimento a crianças de 10 a 14 anos por questões de saúde mental cresceu quase 2.500% na rede pública; entre jovens de 15 a 19 anos, o índice chegou a 3.300%. Nenhum dado com três zeros no crescimento pode ser tratado como ruído estatístico.

Entre jovens de 18 a 24 anos, 31,6% já têm diagnóstico de ansiedade e 14,1%, de depressão, tornando essa a faixa etária com maior prevalência de ansiedade em todo o País, acima inclusive das gerações mais velhas. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar reforça o cenário: cerca de 30% dos estudantes afirmam se sentir tristes sempre ou na maior parte do tempo. Entre as meninas, esse índice sobe para 40%.

Diante da evidência acumulada, países começaram a legislar, como Austrália e Espanha. Já o Brasil ainda engatinha nesse debate. Os brasileiros passam quase 53 horas semanais conectados às redes, contra uma média global de 33 horas, e ainda não há, no País, uma política pública à altura do problema.

Uma geração que chega à vida adulta com a autoestima calibrada por algoritmos, sem ferramentas para lidar com frustração e sem redes de apoio presenciais sólidas, não é apenas uma geração infeliz. É uma geração com capacidade reduzida de construir relações, trabalho e democracia. Os dados já estão na mesa. O que falta não é diagnóstico. É decisão.