Uma carreta de dúvidas
O problema central não é apenas o contrato que propõe zerar filas na Saúde, mas a narrativa que muda conforme surgem os questionamentos
Transparência e verdade deveriam ser os pilares de qualquer política pública, sobretudo quando envolve milhões de reais e a promessa de “zerar filas” na saúde. Em Rio Preto, no entanto, o que se viu foi mais um episódio em que versões conflitantes substituem a clareza que a população merece.
O caso do convênio de R$ 11,9 milhões firmado pela Secretaria de Saúde para um mutirão de exames com a Santa Casa de Casa Branca é emblemático. Durante audiência na Câmara, o secretário Rubem Bottas afirmou que instituições locais, como a Funfarme, teriam sido consultadas, ainda que “informalmente”. A resposta veio rápida e direta: a própria fundação negou qualquer consulta formal para participação em mutirão de exames.
Não se trata de semântica. “Formal” e “informal” não são meros detalhes administrativos. Representam a diferença entre um processo transparente e um procedimento questionável. Quando uma autoridade pública recorre à informalidade para justificar decisões que envolvem cifras milionárias, surgem dúvidas legítimas e questionamentos pertinentes.
A situação se agrava quando surgem outras inconsistências. O secretário mencionou experiências da entidade contratada em cidades como Jundiaí, mas a própria prefeitura local afirmou não possuir qualquer convênio com a instituição citada. São desencontros que não podem ser tratados como lapsos triviais, mas como sinais de fragilidade na construção do argumento oficial.
Além disso, a ausência de licitação ou chamamento público, embora defendida como legal, reforça a necessidade de máxima transparência. Legalidade, por si só, não basta. A população precisa entender por que uma entidade a 300 quilômetros foi escolhida, enquanto instituições locais alegam sequer terem sido formalmente convidadas a participar.
O problema central não é apenas o contrato, nem o modelo. É a condução. É a narrativa que muda conforme a pressão aumenta. É a dificuldade em sustentar uma versão única e consistente.
Em tempos de descrédito institucional, insistir em “meias verdades” é um erro grave. A população de Rio Preto não precisa de justificativas improvisadas, mas de respostas claras, documentadas e coerentes. Porque, no fim, transparência não é opcional, é dever. E verdade não admite versão alternativa.