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EDITORIAL

Tragédia inadmissível

Morte de uma criança de 2 anos na UPA Norte expõe fragilidades do sistema municipal de saúde e exige respostas e responsabilização

por Da Redação
Publicado há 1 hora
Editorial (Divulgação)
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A sociedade rio-pretense recebeu com justificada perplexidade a notícia da morte de uma criança de apenas 2 anos na UPA Norte, em Rio Preto, ocorrida na última sexta-feira, 24. O que, por si só, já é uma tragédia, torna-se ainda mais inaceitável pelo fato de os pais terem procurado atendimento na mesma unidade no dia 17, com quadro de febre alta e respiração acelerada, e a menina ter sido avaliada e liberada.

Há, ao menos, dois pontos que precisam ser esclarecidos. O primeiro diz respeito à conduta clínica. Uma criança com febre alta e respiração acelerada - sinais clássicos de possível agravamento - foi atendida e liberada dias antes de morrer. Houve falha na avaliação? Subestimação do quadro? Faltaram exames? Será que foi seguido um protocolo de forma mecânica, incapaz de captar a evolução clínica? A investigação policial e o procedimento administrativo anunciados não podem se limitar à formalidade. Devem apontar, com precisão, se houve erro - e, se houve, responsabilizar.

O segundo ponto, igualmente preocupante, é estrutural. A informação de que a unidade não realizaria raio-x no período noturno, se confirmada, é inaceitável para um serviço de pronto atendimento que serve a uma das regiões mais populosas da cidade. Uma UPA que não opera plenamente 24 horas deixa de cumprir sua função básica. E, nesse caso, a omissão pode custar vidas.

Não se trata de antecipar julgamentos, mas de adotar procedimentos imediatos para evitar novas tragédias. Quando uma criança passa por atendimentos sucessivos sem resolução e morre aguardando exame, isso não é uma mera fatalidade. São fragilidades em cadeia, que podem incluir uma ou várias frentes: triagem, diagnóstico, acesso a exames, fluxo de atendimento ou sobrecarga das equipes.

A Secretaria Municipal de Saúde afirma que “todas as condutas indicadas foram adotadas” e que o quadro evoluiu rapidamente. Essa explicação não basta. Quadros clínicos graves, especialmente em crianças, exigem justamente protocolos mais rigorosos, monitoramento mais atento e, sobretudo, estrutura disponível para resposta imediata.

Por fim, há uma família devastada por uma perda irreparável. A solidariedade expressa em nota oficial é necessária, mas também insuficiente. O verdadeiro respeito à dor dessa família virá com respostas claras, eventuais responsabilizações e mudanças concretas que impeçam que outra criança tenha o mesmo destino.

Se essa morte não provocar uma revisão profunda no sistema, então estaremos diante de algo ainda mais grave: a incapacidade de aprender com a própria tragédia. E isso é inadmissível.