Diário da Região
EDITORIAL

Sabotagem da esperança

A população tem vacina disponível, mas permite que o luto continue batendo à porta por uma inércia alimentada por distorções ideológicas

por Da Redação
Publicado há 7 horas
Editorial (Divulgação)
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Quando Mirassol foi escolhida como projeto-piloto para a vacinação contra a chikungunya, a cidade recebeu um presente que milhões de brasileiros ainda aguardam com ansiedade: o acesso prioritário a uma tecnologia de ponta, fruto da inteligência nacional. A parceria que une o rigor acadêmico da Famerp, a expertise centenária do Instituto Butantan e a estratégia logística da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo colocou o município na vanguarda em relação à prevenção da doença.

No entanto, o que deveria ser o marco inaugural desta conquista da saúde pública brasileira no que diz respeito à prevenção, está sendo transformado, pela indiferença e pela desinformação, em um símbolo ao desperdício.

Os números são frustrantes: com apenas 2,7 mil imunizados, montante irrisório diante da meta de 37 mil, Mirassol vê "encalhar" um escudo contra um vírus que, em 2024, tirou três vidas dentro de seu território. Cada frasco que se aproxima do vencimento nas prateleiras dos postos de saúde carrega não apenas a promessa não cumprida de proteção, mas uma afronta direta à memória dessas vítimas. Conclusão das mais preocupantes: a população tem vacina disponível, mas permite que o luto continue batendo à porta por uma inércia alimentada por distorções ideológicas.

Essa sabotagem à vacina não é uma excepcionalidade de Mirassol, vale reforçar. Estudo do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getúlio Vargas, revela que o Brasil é responsável por 40% de todo o conteúdo antivacina que circula na América Latina e no Caribe.

Ao importar esse ceticismo estrangeiro sem questionar suas origens e motivações, o brasileiro vem corroendo o que o Brasil construiu com décadas de esforço: sua histórica cultura de imunização, que já foi celebrada em praças públicas como um ato de cidadania.

A importância do projeto-piloto em Mirassol transcende em muito as fronteiras do município. O sucesso da campanha vai permitir ao governo paulista expandir a proteção para as outras 644 cidades do Estado. Sabotar esta iniciativa é, portanto, comprometer a segurança sanitária de milhões de paulistas que poderiam, no futuro, ser beneficiados por essa tecnologia nacional.

A ciência cumpriu seu papel. O Estado garantiu o recurso. A academia validou a eficácia. As vacinas disponíveis passaram por rigorosos testes de segurança e são recomendadas para adultos a partir de 18 anos com risco aumentado de exposição ao vírus.

O que falta aos mirassolenses, agora, é o resgate da racionalidade e da confiança nas instituições que, historicamente, fizeram do Brasil uma referência mundial em imunização.