EDITORIAL

O afeto como resposta

Quando a atenção se torna prática cotidiana, a creche deixa de ser apenas um espaço de guarda e passa a funcionar como um ambiente de proteção e promoção da saúde emocional

por Da Redação
Publicado há 2 horas
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No início dos anos 2000, o economista norte-americano James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, voltou sua atenção para um experimento educacional realizado décadas antes: o Perry Preschool Project, iniciado em 1962 na cidade de Ypsilanti, no Estado de Michigan (EUA).

No estudo, 123 crianças em idade pré-escolar (0 a 5 anos) foram divididas aleatoriamente em dois grupos. Um recebeu educação pré-escolar de alta qualidade entre os primeiros anos de vida; o outro seguiu o modelo convencional. No início, o programa pareceu não produzir grandes resultados: o QI médio dos dois grupos era semelhante.

Mas, ao acompanhar essas pessoas ao longo da vida, Heckman descobriu algo muito mais revelador. Aqueles que haviam recebido atenção qualificada na primeira infância apresentavam maior probabilidade de estarem empregados e muito menor risco de se envolverem com a criminalidade. O fator decisivo não estava apenas no aprendizado formal, mas no desenvolvimento emocional, social e afetivo construído nos primeiros anos de vida.

Essa lógica inspira iniciativas como o projeto Ninho do Bebê, desenvolvido pela Vara da Infância e Juventude de Rio Preto em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, que aposta na troca de conhecimento entre as equipes do ensino infantil e especialistas em clínica de bebês como estratégia de educação, proteção e prevenção na primeiríssima infância.

O projeto é desenvolvido, de forma pioneira, na creche Irmã Dulce, localizada em uma das regiões de maior vulnerabilidade social e econômica de Rio Preto. O local atende atualmente 202 crianças com idades entre 4 meses e 4 anos, em período integral. Professoras, auxiliares e demais funcionários da escola são estimulados a reconhecer sinais de sofrimento, fortalecer vínculos afetivos e compreender que cada interação cotidiana contribui para a formação emocional da criança.

Essa mudança de perspectiva transforma a creche em muito mais do que um espaço de cuidado. Ela passa a atuar como ambiente de proteção, acolhimento e desenvolvimento integral. Quando esse tipo de atenção se torna prática cotidiana, a creche deixa de ser apenas um espaço de guarda e passa a funcionar como um ambiente de proteção e promoção da saúde emocional.

Em territórios marcados por vulnerabilidade social, essa atuação preventiva é ainda mais decisiva. Muitas vezes, a escola é o primeiro lugar capaz de perceber situações de risco e acionar redes de apoio antes que problemas familiares ou sociais se agravem.

Investir na primeira infância, portanto, não é apenas uma política educacional. É uma política de segurança pública, de saúde mental e de desenvolvimento social.

A lição apontada pelas pesquisas de Heckman e por projetos como o Ninho do Bebê é simples e poderosa: quando uma sociedade decide cuidar melhor de suas crianças, está, na verdade, cuidando do próprio futuro.